A Quarta Fase do Capitalismo?
25 de junho de 2009
Por Marcus Eduardo de Oliveira (*)
“Se não fizermos os ajustes necessários para atingir uma economia sustentável, condenaremos nossos descendentes a uma situação infeliz em 2050. O mundo se tornará cada vez mais poluído e mais despojado de peixes, combustíveis fósseis e de outros recursos naturais. Durante algum tempo, essas perdas poderão continuar a ser mascaradas pela enganosa contabilidade baseada no PIB, que mede o consumo de recursos como se fosse renda. Mas, em determinado momento, o desastre será sentido”.
Herman Daly
O processo de acumulação de capital que no entendimento do velho Marx finca raízes a partir do século XV com a expulsão dos camponeses de suas terras, o saque das colônias e o tráfico de escravos, dentre outras situações, nos dias de hoje encontra repouso na absoluta e contestadíssima internacionalização da produção e das finanças.
A dinâmica desse processo de internacionalização que corre solta via fluxo de capitais, atende pelo conhecido nome de globalização ou, no tratamento dado pelos economistas franceses a esse “fenômeno”, também responde pela alcunha de “mundialização”.
Pois bem, será que essa dita globalização (em especial as ocorrências que se dão estritamente sob o âmbito das finanças internacionais via fluxo de capitais) pode significar uma nova (seria, então, a quarta?) fase do capitalismo?
Seria essa uma quarta fase (a se desenrolar nesse século 21) de um sistema econômico-financeiro que já passou pelas fases comercial (séculos 16 e 17), industrial (séculos 18 e 19) e financeira (século 20)?
Tal indagação, em nosso julgamento, se prende a partir de uma constatação inequívoca. Parece-nos que essa possível nova quarta fase em que o capitalismo ingressa é perceptível à medida que verificamos um sistema capitalista cada vez mais completo e maduro, uma vez que antes, nas fases anteriores, era completo apenas em relação a duas situações específicas: o comércio mundial e a exportação de capitais.
No entanto, o fato é que nos tempos atuais esse sistema capitalista ao se expandir por qualquer “praça financeira”, num ritmo on line e real time, cria mais espaços num grande mercado consumidor, fortalecendo a dinâmica desse sistema concentrador de decisões cada vez mais nas mãos de poucos grupos dominantes, em especial grupos que atuam no setor financeiro e industrial.
Dentro dessa característica bem peculiar, a atuação desse sistema capitalista-monopolizador pode ser resumida, grosso modo, na obtenção de elevadas taxas de lucro, no acúmulo e formação de riquezas e na expansão dos negócios comerciais. Por conceituação, esta é a marca de nascença significativa do sistema capitalista que, em essência, se presta unicamente a acumular capital para gerar lucros e, com os lucros gerados e reinvestidos, se põe em marcha para acumular ainda mais riqueza.
Dito isso, aqui vale reafirmar que o capital somente se acumulará caso o mesmo venha a se reproduzir, mesmo que para essa tal reprodução não seja respeitado nenhum limite – nem o ecológico, nem o econômico e, muito menos, o social.
Conquanto, a partir do momento em que o capital se lança em passos largos na tentativa de se reproduzir, essa globalização cada vez mais unificada, põe num mesmo balaio, em nome dos rápidos retornos financeiros, todo o ciclo econômico – produção – circulação – distribuição – consumo. Assim, parece possibilitar, por conseqüência, a ocorrência de crises econômicas mundiais. Crises essas que, num mundo interligado, dito, pois, global, somente potencializam essas crises em alto risco colocando a “própria existência” desse capitalismo em perigo.
Onde está o perigo?
Parece ser de senso comum que esse capitalismo, uma vez mergulhado nessa nova (a quarta?) fase, tem se mostrado, desde seu surgimento, altamente eficiente quanto à alocação de recursos; no entanto, se comporta de maneira péssima (totalmente ineficiente) quanto à distribuição de benefícios.
A fim de se comprovar tal afirmativa chamamos a atenção, nesse pormenor, para a estúpida e desigual concentração de renda e as precárias condições a que estão submetidas quase 3 bilhões de pessoas que habitam a nave-mãe Terra. A existência da pobreza se dá não pelo desconhecimento das formas de erradicá-la, mas sim pela distribuição desigual dos recursos, fruto da concentração de posses/recursos em poucas mãos. Os recursos para uma vida melhor para todos existem; no entanto, são alocados desigualmente.
Ademais, os economistas sabem bem que alocar recursos é uma coisa; distribuí-los de forma justa, equânime, com a participação da maioria, é outra bem diferente. Cabe reiterar, por exemplo, que metade da população mundial passa fome não pela escassez de alimentos, mas sim pela irregular e desleal distribuição desses. Não é que esteja faltando o bolo. O bolo existe – sempre existiu. O problema é que não é (nunca foi) fatiado de maneira igual. Assim também acontece com o acesso à água potável, aos sistemas de saúde e educação. É a riqueza exagerada de um lado versus a pobreza crônica de outro. De um lado sobra; do outro, falta.
Em relação a esse aspecto insistimos que os economistas são sabedores de que uma boa e adequada distribuição, por si só, é responsável por fechar o ciclo de produção que se “desencadeia” com o consumo. Uma adequada distribuição (entrega) de recursos aos mais necessitados tem o mesmo significado que realizar um “consumo eficiente” num mercado tido como “normal”. Não se trata aqui do velho e bom dilema entre dar o peixe ou ensinar a pescar. Face à crescente e vexatória desigualdade, a questão passa mais pela lógica matemática: atender aos mais necessitados no curto prazo ou esperar pelo longo prazo, correndo o risco da assertiva keynesiana de que, nesse tempo último, “todos estaremos mortos”?
Já que o bolo existe, não se deve esperar pelo seu crescimento para fatiá-lo. A demora, nesse caso, pode ser fatal.
E quanto aos limites do capitalismo?
De tanto acumular capital e expandir a capacidade produtiva fazendo jus a essência capitalista, os limites dessa ação acumulatória (e predatória, por conseqüência) acaba por inviabilizar a continuidade desse processo à medida que ultrapassa os limites do ponderável. Afinal, para tudo – inclusive para o próprio capitalismo – há limites.
Diante disso, a questão que se apresenta então é a seguinte: chegamos ou não ao limite desse processo produtivo que usa e abusa dos recursos naturais?
Antes de nos “arriscarmos” a uma resposta, cumpre ressaltar o caráter paradoxal dessa situação. Vejamos primeiramente as razões dessa refutação.
Apesar do crucial desenvolvimento em vários setores produtivos e do intangível avanço técnico-científico, com a globalização e a integração dos mercados puxando esse “avanço” à frente, facilitado pelo fim das fronteiras e pela queda de barreiras alfandegárias, parece que, somente por tais fatos, finalmente, o sistema capitalista se aproxima do limite de reprodução, uma vez que parece não encontrar impedimentos aos seus “impulsos” produtivos.
Esse limite, entretanto, parece fazer sentido quando pensamos que o capitalismo, por si só, já desenvolveu plenamente todo seu potencial produtivo. De que maneira entendemos isso? A resposta é simplista. Basta verificar o meio ambiente para percebermos que os recursos naturais já se encontram mais do que esgotados frente a um processo de desenvolvimento que nos últimos séculos desrespeitou a racionalidade ambiental colocando a existência da Terra em perigo.
A conclusão é una e plausível. O limite ecológico da Terra está saturado. Nos últimos trezentos anos foram usados mais recursos naturais do que em toda a história da humanidade. Nos últimos 150 anos extraiu-se a exaustão minério de ferro, de manganês, bauxita, cassiterita e enxofre. Nas últimas sete décadas viu-se extrair mais cobre, vanádio, nióbio, grafita e tântalo desde que a vida grassou na Terra há 3,5 bilhões de anos. Apenas nos últimos cinqüenta anos foram poluídos mais rios, lagos e mares desde que o animal racional homem colocou seus pés na Terra. O ar nunca esteve tão poluído como no último quarto de século.
A água hoje escasseia, o clima piora a cada momento e os alimentos há muito deixaram de ser “puros” – o que predomina são os transgênicos e os “enxertados” regados a agrotóxicos.
A lógica burra do capitalismo que faz exceder a produção pela busca dos ganhos financeiros de maneira rápida, apenas contribui para conduzir o sistema econômico às mais variadas crises globais. Esse estúpido excesso de produção, que finca estacas num modelo de consumo ambiental insustentável, se tornou, por definição, perigoso e potencialmente auto-destruidor. Talvez seja essa a contradição mor desse sistema.
O desrespeito ambiental que grassa sob as cinzas do imponderável parece realmente não ter limites. A cada ano, aproximadamente 17 milhões de hectares de floresta tropical são desmatados. A sociedade moderna, em especial o lado Norte do planeta, que consome 85% da produção mundial, joga no ralo imensa quantidade de recursos naturais, além de agredir tanto a fauna quanto a flora. Nos últimos cinqüenta anos o tema recorrente nos seminários internacionais de ambientalistas foi a extinção de várias espécies de animais. Por causa do uso medicinal de chifres de rinocerontes em Sumatra e em Java, por exemplo, esse animal foi caçado até o limiar da extinção. A poluição do ar, dos rios, do solo é outra grave ameaça à biodiversidade do planeta. Na Suécia, a poluição e a acidez das águas impedem a sobrevivência de peixes e plantas em quatro mil lagos do país.
O último relatório do Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (Pnuma) afirma que até 2006 a Amazônia acumulou uma perda de 17% da sua vegetação total nos nove países que possuem trechos da floresta tropical. A área total desmatada no período foi de 857.666 quilômetros quadrados. Até 2006, a Floresta Amazônica sofreu desmatamento equivalente a 94% do território total da Venezuela. Esse desmatamento da Amazônia provocou a extinção de 26 espécies de animais e plantas até 2006.
Se de um lado cresce o PIB, do outro cresce mais ainda a destruição ambiental. Nos últimos 10 anos a taxa média de crescimento do produto interno bruto chinês foi de 9% ao ano. Apenas a China, país que depende do carvão para geração de eletricidade, consumiu em 2006 388 milhões de toneladas de aço (30% do consumo mundial) e 1,24 bilhão de toneladas de cimento (54% do total do planeta). As duas indústrias (aço e cimento) estão entre as mais poluentes do mundo. Setenta por cento dos rios chineses, incluindo o principal deles (o rio Amarelo), estão poluídos.
Esse conflito entre produção econômica versus agressão ambiental se resume e encontra confortável morada na lógica burra do capitalismo que “vive e se alimenta”, unicamente, para acumular capital, sempre “conectado” aos ganhos de escala “desrespeitosa” de uma produção “destruidora”.
Em outras palavras, por mais irônico que possa parecer é o próprio acúmulo de capital – dentro dessa lógica do ganhar a qualquer custo – que tende a levar o sistema capitalista à estagnação e, por conseqüência, a vida do planeta à bancarrota. Ao atingir-se o “limite de reprodução” torna-se contraproducente manter o sistema em funcionamento. Aliás, o “sistema” deixa de funcionar. Com isso, aos poucos, o capitalismo vai “se enforcando” em suas próprias cordas levando todos nós juntos nesse “suicídio coletivo”.
O autor é economista e professor universitário, com mestrado em Integração da América Latina pela Universidade de São Paulo (USP).
É autor de “Conversando sobre Economia” (Ed. Alínea).
Nicolas
26/06/2009 - 9:42
Prezado
Gostaria de parabenizá-lo pelo excelente artigo desenvolvido, porém gostaria de devolver a pergunta: Será a quarta fase do capitalismo???Será que se estenderá por muito tempo esta brutal desigualdade social ??? Até quando a imprensa mundial deixará de publicar a realidade de vida da grande massa explorada??? O que diria Marx ao analisar esta atual fase do capitalismo….embora tenha previsto ha 162 anos atrás as conseqüências deste capitalismo selvagem que vivemos hoje???
Enquanto permanecermos no comodismo, esta situação nunca irá mudar. Gostaria de finalizar com a seguinte frase de Karl Marx: “Proletariado do mundo, uni-vos”
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Valdecir da Silva
12/07/2009 - 12:54
Parabenizo-o pelo excelente texto. Mas infelizmente esta não é a útima fase e, à medida que capitalismo “evolui”, a sociedade involui, pois com a concentração da riqueza nas mãos de poucos, “fabricamos” mais miseráveis, famintos, sem terra, sem teto,… que, mesmo inconciente e/ou involuntariamente, são dispostos a tudo para sobreviver: roubar, sequestrar, matar,…. e, quando em grupos maiores: constrruir bombas atômicas, cometer atos terroristas,…
Ou estudamos e criamos novas fórmulas para distribuir riquezas – as do mundo são finitas e os atuais donos mesquinhos – ou corremos o risco de ser exterminados por um ato de loucura desferido pelos despossuídos do planeta.
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