A Tarefa do Economista Moderno
Fevereiro 28, 2010
A primeira e, talvez, a mais importante constatação que o economista moderno deve fazer é que, hoje, infelizmente, a ciência econômica ignora o indivíduo e se preocupa, exclusivamente, com a acumulação de capital. É forçoso ressaltar, nesse sentido, que desde que surgiu, a Economia está focada no materialismo, no individualismo e no “salve-se quem puder”.
A socialização de bens e serviços, a luta por uma boa colocação no mercado de trabalho e uma justa e equilibrada distribuição da renda, são objetivos que, em matéria de políticas econômicas, tem passado longe das preocupações governamentais. O discurso contrário tem ficado apenas restrito aos “programas de governo”, ou seja, apenas no papel. Quando “saem” do papel encontram morada tranquila nas gavetas dos “escritórios do poder”. Nesse pormenor, os objetivos econômicos (que em época de campanha política elege muita gente) ficam apenas no plano teórico e são muito bem explicitados, por sinal, apenas, e tão somente, na propaganda política televisiva. É nesse momento que se “vende” aos eleitores um mundo de sonhos que jamais será entregue. Daqui alguns meses veremos isso novamente.
No entanto, o objetivo aqui é outro. Queremos ressaltar a tarefa que cabe ao economista moderno diante de uma sociedade repleta de injustiças sociais. Esse economista, conhecedor teórico dos problemas sociais, que não vive num “mundo onírico”, precisa ter em mente que um mundo melhor para todos somente será possível quando as gritantes disparidades entre o modo de ser/agir dos ricos e o dos pobres for diminuída substancialmente.
Para que isso ocorra, deve o economista moderno pensar, antes, no social, e fazer com que isso esteja sempre acima do econômico. Por que isso? É necessário entender que um rompimento com a tradicional teoria econômica precisa ocupar lugar.
A economia moderna não pode continuar ignorando os aspectos não-monetários. Há muitas coisas interessantes que estão “fora” do padrão monetário-financeiro apregoado pela tradicional teoria econômica.
A economia tradicional dos manuais de Introdução à Economia sempre ignorou o aspecto não-monetário. A moderna economia que desejamos que aconteça precisa equacionar essa pendência. O lado não-monetário envolve aspectos da vida, dos desejos que nem sempre passam pelas portas do crédito financeiro como pré-condição para a obtenção de bens e serviços. É necessário entender que o lado não-monetário tem a ver com a real concepção de Economia propugnada por Alfred Marshall: “a economia cuida das atividades correntes da vida”. Por isso é tão urgente “repensar” a economia, mesmo que isso implique em remar contra a maré.
É necessário, para tanto, uma vez mais combinar reflexão com ação. Basicamente, para o ambiente econômico em questão, é preciso fazer aquilo que frei Leonardo Boff diz com bastante propriedade: “idéias podemos até tê-las, mas o que realmente move o mundo são nossas ações”.
Se todos estiverem imbuídos desse pensamento (ação para mudar), ficará mais fácil então cobrar por ações da política pública nesse sentido. Todo governo, e todo governante, tem o direito de dizer o que fez em sua administração, mas tem também o dever de dizer o que não fez e, por isso, pedir desculpas pelas falhas cometidas ou omissões praticadas. Todo governo, por conseguinte, todo governante, precisa entender que está à serviço da comunidade que o elegeu. Todo governo precisa saber entender a vontade popular e ficar sensível aos anseios do povo, principalmente quando os desejos populares vêem embasados em perspectivas humanísticas, igualitárias, democráticas, com senso de ética e solidariedade. A ciência econômica, por sua vez, precisa, em certo momento, remar contra a maré e abandonar o pragmatismo acadêmico, ressaltando aos estudantes, nos cursos superiores, essa premissa (a da necessidade de mudanças) que aqui me parece básica e fundamental.
Insistindo nesse assunto, é imperioso ressaltar que a ciência econômica precisa se colocar junto à força do povo, buscando promover ações em favor das mudanças de paradigmas. Paradigmas, é imperioso ter isso em voga, em certas ocasiões, são mais fortes que teorias.
Historicamente, toda vez que o povo saiu às ruas, algo aconteceu. Curiosamente, em todas as ocasiões em que houve manifestação popular, o lado econômico encontrava-se abalado; por vezes era uma inflação qualquer que estava fora de controle, por outras era um orçamento público incompatível com os anseios populares, ou ainda foi a falta de pão (ainda que alguém da elite, virando às costas ao povo, como de costume, recomedasse comer broas) ou fora o dinheiro do contribuinte “confiscado”. O fato é o seguinte: sempre um acontecimento econômico se fez (e esteve) presente nas diversas manifestações populares que provocaram mudanças.
Nem tudo se resume a mera questão de mercado
Conquanto, um primeiro passo para qualquer mudança, em especial no ambiente econômico, talvez seja fazer com que os economistas modernos e outros cientistas sociais, se sintonizem no fato de que nem tudo se resume em commodities; portanto, nem tudo deve ser condicionado à mera questão do mercado. Por consequência, nem tudo deve se resumir na pré-condição de mercadoria pronta a ser vendida. Segundo creio, o essencial (a vida em toda sua abrangência) não está a venda! A economia não pode ser resumida a estreita visão de que o mercado (as vendas, por consequência) é o único caminho a ser percorrido. É importante salientar que o mercado não produz progresso, apenas o segue.
Essa visão mercantilista, fortemente reforçada pelos mecanismos capitalistas de mercado, e por políticas que tem destruído a proteção social, leva a um fato crucial: tudo está (é colocado) à venda; assim querem os donos do dinheiro! Dessa forma, preconizam os defensores do capitalismo que querem tudo vender e, para tanto, em tudo colocam seus preços.
De nossa parte, entendemos a economia de outra maneira: vale aduzir que a economia vai além dos preços; vai além dos mecanismo de mercado. A economia não se restringe apenas a variável “consumo”. A economia vai além dos fatores não-monetários, para reiterar-se uma vez mais essa premissa.
Frei Betto, frade dominicano e escritor respeitado no cenário nacional, foi categórico, a esse respeito, em A Mosca Azul, afirmando que “o consumo consome o consumidor”. Em outras palavras, o que Frei Betto diz é que a economia não reconhece direitos, apenas o poder de compra, daí a necessidade da economia tradicional em valorizar o tempo todo o consumidor, não o cidadão. Cabe procurar escapar a essa “provocação econômica”, pois a vida, definitivamente, não se restringe a compra de meras mercadorias.
No entanto, as leis do mercado, centradas exclusivamente na venda de tudo, devora o “muito” daqueles que “pouco” tem. Longe dessa visão puramente mercantil (e mercadológica), cabe ao economista moderno pensar primeiramente nos pressupostos que devem nortear uma sociedade que visa o equilíbrio como objetivo central.
A mudança para isso passa inexoravelmente por entender a economia de outra maneira. Para tanto, os ideais de justiça, liberdade e igualdade precisam, constantemente, virem à baila. Contra a exclusão e a desigualdade sócio-econômica o economista de hoje deve insistentemente se posicionar. Igualdade não combina com exclusão; assim como liberdade não combina com injustiça.
O tipo de sociedade que o economista moderno deve pensar (e procurar fazer) tem que necessariamente passar pela cooperação, em lugar da competição. Esta última, até mesmo por ser quase sempre praticada de maneira desigual (concorrência desleal e imperfeita no jargão econômico), privilegiando apenas os mais abastados, apresenta evidências, a todo instante, e mais que suficientes, que serve apenas para dividir e segregar. Quem ganha na competição se dá bem. The winner takes it all, (O vencedor leva tudo!) diz o título de uma canção do grupo musical sueco Abba. O perdedor? Ah, esse será um eterno excluído! A ele dá-se as batatas!
Alguém lendo isso poderá recorrer ao velho axioma: quem não é competente não se estabelece. Logo, é justo que o vencedor leve tudo. Acontece que, antes de olhar nessa direção, é necessário saber em quais condições estão se dando essa tal competição.
Muitos são sabedores que a competição privilegia àqueles com mais acesso às informações. Certamente, esse gozam de privilégios financeiros que a imensa maioria (os despossuídos) nem sonha chegar perto. Logo, por possuírem vantagens em relação aos que tem enormes dificuldades de se manter em pé, quem é que ganhará esse jogo competitivo que mais parece um jogo entre gato e rato? A pergunta que fica então é a seguinte: é justo, nesse sentido, que o vencedor deva levar tudo?
Essa é uma das razões da sociedade ser extremamente dividida. A primeira premissa dessa separação se dá pela ótica das posses; pela extrema e elevada condição financeira de uns que facilita, na ponta final, a posição social que cada um desses irá ocupar em relação aos que nada possuem. A continuar tal “separação”, dada pela questão financeira, jamais se chegará a condição sonhada de ter-se um amanhã melhor para todos. Somente somando forças, e não dividindo, se poderá, quiçá, alcançar uma sociedade mais justa e menos desigual. É sabido que a força coletiva faz o progresso acontecer. Com o progresso, a chance dos que nada tem passa a ser considerável.
A cooperação, nesse sentido, pode ser à luz que falta àqueles que hoje vivem completamente à margem dos benefícios, tanto econômicos, quanto sociais, que uma sociedade equilibrada e justa é capaz de oferecer.
É nessa direção que o economista moderno deve direcionar esforços. E, antes de qualquer outra coisa, é nessa linha de conduta que o economista moderno deve remar contra a maré da sabedoria econômica tradicional.
As causas e consequências da pobreza em que vive 1/3 dos brasileiros, para tomar-se aqui como paradigma o Brasil, deve ser ensinada pelas ciências econômicas como sendo a mais abjeta situação, comparável a ignomínia da escravidão que marcou esse país por séculos. Essa deve ser a primeira lição ensinada no primeiro dia de aula no primeiro ano do curso de graduação em Ciências Econômicas. E essa mesma “preocupação” deve continuar nos cursos de pós-graduação na área de Economia e de outras ciências sociais. Essa preocupação com o social precisa nortear, definitivamente, as ações de nossos economistas e cientistas sociais.
Há uma passagem ilustrativa de Ladislau Dowbor em O Mosaico Partido, que abrilhanta essa assertiva: “Quem não entende os processos econômicos, acaba não entendendo coisas tão elementares como porque somos capazes de façanhas fenomenais como as viagens no espaço, mas somos incapazes de reduzir a tragédia de 11 milhões de crianças que morrem anualmente de fome e outras causas absurdas, ou ainda de conter o ritmo de destruição ambiental do planeta. Já estamos tentando brincar de criadores clonando a vida, mas não somos capazes de resolver o problema do carrapato”.
A pobreza, a fome, a miséria e todo e qualquer tipo de exclusão social devem ser os temas de maior interesse do economista moderno; principalmente em sociedades com elevados índices de desigualdades. É simplesmente inadmissível aceitar que no mundo de hoje haja gente passando fome em qualquer parte do planeta, visto que os recursos para acabar com a fome sobram – são até mesmo desperdiçados.
Uma questão de ética
Esses temas (fome, miséria), abarcados, pois, na definição ampla de exclusão social, devem, antes, ser encarados como temas concernentes aos Direitos Humanos; portanto, não apenas restrito a uma área específica do conhecimento, até porque a existência da fome, em especial, é uma questão de ética, e não apenas de “desequilíbrio” econômico ou uma mera questão de ajustes produtivos. Isso não quer dizer que o economista não deva se debruçar sobre essa questão como enfatizado anteriormente.
Nesse pormenor, o economista precisa se engajar em outras áreas do conhecimento para junto a outros “pensadores” encontrarem, coletivamente, as alternativas para a necessária mudança. Uma simbiose com a Sociologia, com as Ciências Políticas, a Administração, o Direito ou mesmo a Psicologia precisa aflorar. Sozinha, a Ciência Econômica não conseguirá dar boas respostas a tais anomalias, embora seja um instrumental riquíssimo de análise dos fatos e acontecimentos que correm atualmente.
Propor alternativas para erradicar esses males deve ser a tarefa a ser empreendida por todos os profissionais que chegam a todo momento ao mercado de trabalho, independente da área de atuação.
A Economia, em especial, precisa resgatar seu DNA social, afinal, a ciência econômica “nasceu” também para isso: para dar uma resposta positiva aos problemas sociais que tanto aflinge o pensamento do homem moderno. Certamente, os problemas da fome e da pobreza que marcam a ferro e fogo a desigualdade social no Brasil, precisam ser pensados a todo instante por aqueles que tem a rara oportunidade de dirigir a vida econômica de um país.
Definitivamente, a meu ver, o que deve ser entendido é que, por meio das conhecidas políticas econômicas, abre-se grande chance de mudar a vida de milhões de pessoas. Mudar para melhor a vida de milhões de pessoas: eis a grande tarefa que cabe ao economista moderno.
Prof. Marcus Eduardo de Oliveira
Economista, mestre pela USP e professor do UNIFIEO (Depto. de Comércio Exterior) e da FAC-FITO (Depto. de Economia). Autor dos livros “Conversando sobre Economia” (Ed. Alínea) e “Provocações Econômicas” (no prelo).
A Economia servindo de instrumento na construção de uma sociedade mais justa
Fevereiro 20, 2010
Viver em uma sociedade mais fraterna e menos desigual, com relações sociais e humanas ditadas pela ordem da cooperação, em lugar da competição desleal, certamente é o sonho de muitos e a necessidade premente do tão sonhado e decantado mundo melhor para todos.
Buscar construir esse mundo mais harmonioso, mais solidário, mais participativo, onde as disputas sejam travadas de maneira igual é o ideal pensado e idealizado por todos aqueles que sentem (ou já sentiram) na pele, de uma forma ou de outra, a dor e o peso da discriminação e das oportunidades desiguais.
Conquanto, o ideal de um tipo de sociedade mais justa tem sido pensado desde os tempos iniciais da Filosofia Clássica.
Platão (428–347 a.C.) pensou isso em A República (Politéia), quando idealizou uma cidade onde seus habitantes gozassem de plena e pura racionalidade. O egoísmo não existiria, as paixões seriam controladas, os interesses pessoais dariam lugar aos interesses coletivos; o Bem comum, o Belo e o Justo imperariam como princípios básicos, universais e pétreos. Tommaso Campanella (1568–1639), outro iluminado da escrita, em A Cidade do Sol idealizou uma comunidade a ser governado por homens iluminados, dotados de plena razão. Thomas More (1478–1535) pensou em Utopia (em grego, “Lugar que não existe”) uma sociedade ideal que se mantivesse longe do conceito da propriedade privada. O luxo, o supérfluo, o orgulho e a vaidade não teriam lugar nas cidades da “Ilha de Utopia” idealizada por More. Lá, o bem individual seria totalmente submetido ao bem geral. O inglês James Hilton (1900–54), por sua vez, pensou em Shangri-la um local onde a convivência entre as pessoas de diferentes procedências fosse, no bojo, de cunho puramente harmonioso.
De fato, desde os primeiros passos da criação literária, o ideal de se viver em harmonia tem dominado o pensamento da humanidade.
Assim também se deu com o nascimento das ciências, em especial, as humanas (sociais), cada qual, à época de seu surgimento, de certa forma, incidiu em profunda contribuição para aguçar esse debate em torno da construção da justiça plena e igualitária estendida a todos. E a Economia (enquanto ciência social), evidentemente, não poderia ficar de fora dessa seara.
No entanto, algo sobre essa temática em torno das ciências econômicas precisa ser bem esclarecido. Repousa sobre esse corpo sistemático de conhecimento, desde a obra seminal do escocês Adam Smith (1723-90), certa nuvem negra em torno de sua real abrangência social. Ao fazer por sistemáticas vezes intenso uso dos cálculos frios em suas análises, dispondo, para isso, por exemplo, do cabedal teórico da econometria (disciplina fundada pelo norueguês Ragnar Frisch, [1895-1973], cujo emprego de fórmulas matemáticas serve para analisar quantitativamente os fenômenos), é comum que a ciência econômica se afaste, por conseqüência, da sensibilidade social.
Conquanto, resgatar a Economia (enquanto ciência) para essa abrangência (e preocupação para com o) social é, pois, tarefa de suma importância que cabe aos teóricos da economia nos dias de hoje executar; até mesmo porque não se deve perder de vista que a economia é, na essência, uma ciência humana, não exata.
A esse respeito, nosso maior pensador no campo da economia, Celso Furtado (1920-2004), disse, em meados dos anos 1970, que é necessário “buscar construir um debate a partir da constatação de que carecemos de uma teoria geral das formações sociais que provoquem os economistas e outros teóricos das ciências sociais a pensar a teoria social de forma global”. (Prefácio a Nova Economia Política, 1977).
Não por acaso, nessa mesma linha de pensamento, Furtado afirmou, tempos depois, que “a descoberta do social foi a coisa mais relevante em minha vida”. (O Longo Amanhecer, 2003).
Tomando a liberdade de aqui “escapar” um pouco das brilhantes contribuições teóricas legadas por Furtado, em meu entendimento, creio que colocar a economia (usando-a como instrumento) ao serviço da construção de uma sociedade mais justa somente fará sentido se, e somente se, entendermos, definitivamente, que as estruturas sociais (incluindo o grau de desigualdade sócio-econômica) são historicamente determinadas e, por isso, todo esforço na construção de um mundo melhor, terá validade quando, e somente quando, romper-se com os determinantes que estabelecem esses padrões de desigualdades. Sem essa ruptura, nada avançará. Crucial é entender, segundo creio, que as diferenças sociais não são coisas naturais, mas, antes, são condições impostas. Ninguém é pobre ou miserável por que quer. A pobreza e a miséria, espelhos de uma sociedade desequilibrada em sua essência social, são fatores impostos.
Contornar essa celeuma talvez seja o fato de grande relevância para os dias que seguem. Romper com a teoria econômica tradicional que projeta luz somente no mercado e nas mercadorias é um primeiro passo para o objetivo da transformação social.
A economia não pode ficar restrita somente ao conteúdo mercadológico; antes disso é necessário entender que há pessoas que participam, que compõem e que formam toda a estrutura econômico-social. O objeto central de análise de uma ciência social, tal qual a Economia, deve sempre ser o indivíduo e suas necessidades.
A ciência econômica moderna, não pode mais ser pensada sem a inclusão da esfera social. Incluir os diversos atores que compõem todo o cenário social é imprescindível; assim como também é imprescindível pensar, por exemplo, em desenvolvimento econômico (tema esse caro ao objetivo mor de melhorar a vida de todos) sem desconsiderar o problema ecológico (incluindo a problemática em torno da limitação dos recursos).
Junto a isso, tendo em conta a necessidade de levar a economia para perto da análise social, é fundamentalmente importante condenar de forma veemente o mito de que os mercados se autorregulam. Os mercados conduzidos sozinhos, ao léu, somente potencializam as crises, os desajustes, os desequilíbrios à medida que se prioriza apenas uns poucos, em total esquecimento da maioria.
Para que esse padrão de análise dê certo, ou seja, para que a atividade econômica incorpore, de fato, a preocupação para com o lado social, a dinâmica do crescimento da economia, por exemplo, deve ser pensada “por dentro”, e não “por fora”. Esse crescimento deve ser endógeno, não exógeno. Para tanto, deve ser priorizado o capital social e humano de dentro das fronteiras; deve ser canalizado os recursos via poupança doméstica, não os recursos externos que sopram a favor dos ventos da especulação, da volatilidade de ordens diversas.
Assim também pensa o economista chileno Oswaldo Sunkel que formulou o conceito de “desenvolvimento a partir de dentro”, ou seja, respeitando-se e levando-se em conta as idiossincrasias próprias de cada lugar, de cada povo, de cada necessidade básica, de cada peculiaridade.
É nesse pormenor que entendemos a necessidade do rompimento com a tradicional teoria econômica que ainda infesta os manuais acadêmicos. Buscar olhar a economia sob o prisma de que essa ciência pode (e deve) ajudar na construção de um mundo melhor nos parece, a contento, uma tarefa das mais imprescindíveis. Assim como um dia, nos idos iniciais do pensamento fisiocrático, o bem-estar de todos dependia, exclusivamente, da produtividade do trabalho agrícola, a ciência econômica precisa superar certas “ponderações” e colocar o indivíduo e o meio-ambiente como pontos centrais em suas “preocupações”.
A todos que se identificam com esse objetivo, resta fazer valer e prédica que recomenda que a vida somente faz sentido quando dela fazemos uma ferramenta capaz de transformar o mundo em que vivemos. A economia (ciência e atividade) não pode se furtar a esse compromisso.
Por Marcus Eduardo de Oliveira
Economista, mestre pela USP e professor do UNIFIEO (Depto. de Comércio Exterior) e da FAC-FITO (Depto. de Economia). Especialista em Política Internacional pela Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo (FESP).
Autor dos livros “Conversando sobre Economia” (Ed. Alínea) e “Provocações Econômicas” (no prelo).
Economia com face mais humana
Fevereiro 7, 2010
A Economia (enquanto ciência e atividade produtiva) somente será viável se for humana, para o homem e pelo homem. Essa frase, interessante pela sua abrangência social, é atribuída ao papa João Paulo II (Karol Voitjila, 1920-2005). O fato é que uma economia com face mais humana, preocupada com a questão social, tem sido constantemente sufocada em nome de modelos econômicos distorcidos que são dirigidos em favor de ganhos na escala especulativa.
Modelos econômicos, em geral, aqui e acolá, têm sido desenhados para atingir objetivos no curto prazo, quase sempre apontando para a necessidade de fazer a produção crescer. Acontece que buscar maior produção não assegura, por conseqüência, que todos participação dela ou terão sua fatia disponível para abocanhar o bolo do crescimento econômico. Isso, por si só, já nos permite afirmar que crescimento não rima com desenvolvimento; e que, por definição mais ampla, significa ainda dizer que crescer não permite se desenvolver como mera contrapartida. Desenvolvimento passa por uma abordagem bem mais ampla envolvendo, no bojo, melhoria substancial na vida dos mais necessitados.
Dessa constatação parte uma provocação e um chamado a quem se interessa por construir uma economia mais humana e menos tecnicista em seu sentido capitalista-espoliador. A provocação é simples: precisamos enveredar esforços no sentido de lançar-se um olhar renovador sobre a economia para, a partir disso, entender e propor alternativas a esse mundo-econômico repleto de injustiças e distorções. O objetivo disso tudo é apenas um: criar modelos econômicos que permitam melhorar a vida de milhões de pessoas. Esse é, certamente, um dos grandes desafios que o economista moderno desejoso de ajudar a construir um mundo onde todos ganham precisará enfrentar. Para tanto, uma ruptura com a tradicional teoria econômica precisa acontecer. Nesse sentido, o eixo central da economia – base da economia tradicional - não pode ser estritamente o mercado e, o objeto, a mercadoria; mas, antes, o indivíduo e suas necessidades básicas e peculiares. Que a Ciência Econômica “carregada” por todos aqueles que vislumbrem a necessidade de mudar os modelos econômicos para a construção de um mundo melhor seja posta no caminho de se construir, de forma sólida, a igualdade entre os homens.
As diversas crises que a economia e a sociedade, por não raras vezes, são (e tem sido) acometidas servem para acender a chama da renovação e da urgente mudança, até mesmo porque é inaceitável aceitar pacificamente a imposição de certas “ordens” ditadas pelos abonados mandantes da ordem estabelecida.
Amartya Sen, um dos economistas que mais tem trabalhado a questão do social em torno da análise econômica, a esse respeito, certa vez disse que: “É difícil entender como uma ordem mundial compassiva pode incluir tanta gente atormentada pela miséria extrema, pela fome persistente e por vidas miseráveis e sem esperança, e por que a cada ano milhões de crianças inocentes têm de morrer por falta de alimentos, assistência médica ou social”.
Talvez seja por isso que certas situações causam tanto incômodo. Vejamos, por exemplo, que os dentes afiados da financeirização internacional que movimentam, em termos especulativos, 2 trilhões de dólares por dia, nos dilaceram a carótida, nos jogam de bruços ao chão, nos tornam ínfimos e raquíticos perante a força do grande capital. Disso resulta a constatação que é simplesmente insano, patológico mesmo, “descobrir” essa verdade sabendo ser também verdadeiro que, a cada ano, milhões de pessoas – pobres, miseráveis e indigentes – padecem pela dor física da fome.
Nos dias que correm nesse século XXI que vem carregando 2.000 anos nas costas a contar do nascimento de Cristo, todas as noites, 900 milhões de pessoas – crianças, jovens, idosos, homens e mulheres comuns -, vão dormir de barriga vazia; não pela opção estética do corpo magro e perfeito, mas por terem as bocas esfaimadas; porque os famigerados sistemas econômicos que “manipulam” mercados ao doce sabor do lucro e que pelos mercados são “manipulados” em favor dos rápidos retornos financeiros assim determinam tal ordem ignominiosa.
Isso nos leva a outra reflexão: Em se tratando de economia, não tenhamos dúvidas: as ações econômicas possuem diversas dimensões e impactos múltiplos que afetam substancialmente à qualidade de vida das pessoas; às vezes de maneira positiva ou negativa. Em outras palavras, em economia somos todos responsáveis pelo que acontece. O lamentável fato de presenciarmos gente morrendo de fome num tempo em que o avanço tecnológico é incomensurável, não pode ser moralmente justificável. Quase todos conhecem as maneiras (o modo de fazer) e sabem que os recursos para tirar essa massa incontável de pessoas da indigência estão disponíveis. Nesse pormenor, bastaria, para tanto, menos de 0,5% de um PIB mundial que está batendo na casa dos 65 trilhões de dólares anuais para acabar, de uma vez por todas, com essa sandice.
Nesse sentido, para finalizar vale resgatar aqui as sábias palavras de santo Agostinho quando diz com clareza que “a esperança tem duas filhas lindas: a raiva e a coragem. Raiva do estado das coisas e coragem para mudá-las”. Que tenhamos a coragem para mudar esse cenário de tristeza que são cometidos aqueles que passam fome, em geral determinadas pelas ditas “ordens e modelos econômicos”.
Por Marcus Eduardo de Oliveira
Economista, mestre pela USP e professor universitário. Especialista em Política Internacional pela Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo (FESP). Autor dos livros “Conversando sobre Economia” (Ed. Alínea) e “Provocações Econômicas” (no prelo).
O Mercado e suas Excentricidades
Janeiro 10, 2010
A maior parte dos estudos econômicos parte da seguinte premissa: os consumidores devem “maximizar utilidade” e as empresas “maximizarem lucro”.
Para que essa premissa se torne, de fato, real, o mercado – espécie de lugar sagrado no circuito econômico – se apresenta como parte indispensável. “A universalidade dos mercados e sua estreita conexão com quase todas as facetas das relações humanas”, nas palavras do professor Tyler Cowen, é algo que não pode ser negado. Basta olhar ao lado para verificar-se a importância dos mercados no ambiente da economia. Antes de qualquer outra coisa, basta reunir um grupo de compradores e vendedores e colocá-los em permanente contato uns com os outros. Estabelecem-se aí as relações econômicas de compra, venda e troca de mercadorias e, por vezes, descobrem-se algumas excentricidades nesse dito mercado. A importância dessa relação é factual para o desenrolar da atividade econômica. Cowen cita que “a lógica dos mercados está presente na humanidade desde a aurora da história e provavelmente muito antes disso. Em laboratório, até macacos se entregam a comportamento cooperativo recíproco, se a conduta lhes rende mais comida”. (1)
De tal modo, o mercado regula as atividades que fazem economias prosperarem ou irem à ruína. E a chave que faz girar essa conduta atende pelo nome de “vendas”. Vende-se de tudo nesses mercados – excêntricos, por natureza -, de forma que, mais cedo ou mais tarde, essa “conduta” nos encontrará.
Em São Luís, Maranhão, há um refrigerante cor de rosa com sabor adocicado lembrando cravo e canela de nome “Jesus”.
Tão interessante quanto o nome do refrigerante são os slogans dessa bebida: “Fé no estômago!” e “Abençoe sua sede!”.
Na Índia, há algumas empresas especializadas em festas de casamento. Até aí tudo bem, não há nada de novo, muitos fazem isso. O fato excêntrico é que essas empresas são especializadas em contratar pessoas para as festas de casamentos em que aparentemente haverá poucas pessoas. Os “convidados” (contratados), devem se comportar como se conhecessem os noivos e se apresentam, obrigatoriamente, vestidos conforme a necessidade da festa e ao agrado dos noivos.
Assim como há “contratados” para um casamento, também há para um funeral. As carpideiras ocupam essa cena trágico-cômica. Em troca de acordos financeiros, essas profissionais femininas têm a função de chorar para um defunto alheio. Curioso é dar-se conta que tal profissão existe há mais de dois mil anos. No Brasil, segundo relatos, as “carpideiras” chegaram junto com a colonização portuguesa. Inicialmente o pagamento não era feito em dinheiro, mas com bens da família do defunto.
Todavia, já que o assunto agora é morte e velório, no Chile determinados cemitérios e agências funerárias vendem ataúdes com uma espécie de sineta acoplada à parte interior do caixão, evitando-se assim o medo da tafofobia (2). Só não é possível assegurar que, uma vez tocada essa sineta, caso o caixão já esteja terra abaixo, alguém conseguirá ouvir.
E o que dizer do mercado que envolve a estética? Em especial, a estética feminina. As cirurgias de retirada de costelas para afinar a cintura são um bom exemplo de que há de tudo no mercado e que, por conseqüência, no mercado se poderá encontrar de tudo. No México, aparentemente sem uma razão específica, a procura por esse tipo específico de cirurgia é maior que em qualquer outro lugar.
Pensando como um economista e analisando a relação custo/benefício certamente há de se concluir que os custos, nesse caso, riscos, são bem maiores que os benefícios (nesse caso, a estética).
O risco dessa cirurgia é bem maior em termos de se comprometer à saúde, pois se mexe com a estrutura óssea e com muitas terminações nervosas, podendo perfurar o abdômen e a pleura (membrana que envolve os pulmões).
Nesse rol das cirurgias íntimas femininas, conhecidas como ninfoplastia, aquela que permite “reconstruir” o hímen parece ser, de longe, uma das que mais sucesso faz; só não se sabe, ao certo, se o sucesso maior dessa prática cirúrgica ocorre entre as mulheres ou os homens, os “beneficiados”, nesse caso específico. No entanto, o mercado dessas cirurgias não pára de crescer. Uma cirurgia de “rejuvenescimento vaginal a laser” que pretende fortificar e melhorar o controle do tônus vaginal não sai por menos de R$ 5 mil.
No entanto, a excentricidade do mercado, sempre em busca de maiores vendas, chega mesmo a ser inimaginável. Há quem diga que o príncipe Charles tem um mordomo encarregado apenas de pôr creme em sua escova de dentes. O casal David e Victória Beckham chegaram a contratar, a um custo de mil libras por dia, um “mordomo” apenas para abrir os vários presentes recebidos pelo casal em época natalina. O poeta Pablo Neruda (1904-73) colecionava (comprava, melhor dizendo, a qualquer preço) desde conchinhas a navios em miniatura, passando por garrafas vazias e bebidas de todos os tipos que encontrava pela frente, além de máscaras, cachimbos e até mesmo insetos. O curioso disso é saber que se pode “comprar” até mesmo insetos.
Tiger Woods e o Sultão de Brunei
Em alguns casos as excentricidades fazem girar em gastos prá lá de exorbitantes. Tome-se como exemplo que uma leve mistura de álcool, óleos com essência e compostos aromáticos chegam a custar rios de dinheiro. Esse é o caso, por exemplo, de alguns perfumes. De acordo com a revista Forbes, um “simples” frasco de 500 ml do “Imperial Majesty”, de Clive Christian, não sai por menos de US$ 215.000 (algo como R$ 430 mil). São fabricados 10 frascos por ano, apenas para alguns colecionadores. O recipiente desse perfume é feito em cristal Baccarat com colar em ouro 18K, brilhante 5K e diamante branco.
E o que dizer então do mercado esportivo que transforma alguns “gênios” em milionários apenas em uma temporada esportiva. Esse é o caso de Tiger Woods, o garoto de ouro do golfe, e, certamente, o atleta mais bem pago do mundo, além de ser o primeiro esportista a faturar na história a bagatela de US$ 1 bilhão. Somente em 2008 Woods embolsou US$ 100 milhões. Woods vive em um mundo no qual o principal combustível é o dinheiro. Ele “vive” rodeado de cifras estratosféricas. Para tê-lo em torneios ou eventos promocionais é preciso desembolsar uma pequena fortuna. Ele não sai de casa por menos de US$ 1 milhão.
A mídia sabe bem que onde Woods põe a mão é lucro certo. É por isso que empresas como a Nike e a Titleist (fabricante de bolinhas de golfe) querem Woods como garoto-propaganda. Somente a Nike colabora com cerca de US$ 40 milhões por ano de depósitos na conta bancário do golfista, assim como paga metade disso a Michael Jordan, a estrela internacional de basquete norte-americano.
Fora isso, Woods ainda faz propagandas ou aparece em eventos televisivos usando a marca American Express e Rolex. No total, o mercado estima que essas companhias paguem a importância de mais de US$ 80 milhões por ano ao jovem golfista.
No entanto, em termos de extravagância mercadológica, talvez ninguém supera um tal de Hajji Hassanal Muhizzaddin, mais conhecido como o Sultão de Brunei. Dono de uma fortuna estimada em 20 bilhões de dólares esse senhor é capaz de cortar os cabelos em Manchester (Inglaterra), a uma distância de 19 mil quilômetros de seu palácio e pagar por isso R$ 45 mil. Em se tratando do Sultão de Brunei isso parece não representar muita coisa, tendo em vista que o referido cidadão é dono de 165 Rolls-Royce, 63 Mercedes Benz, 650 cavalos de raça. Em seu palácio, maior que o Vaticano, há simplesmente 1788 cômodos. As paredes são decoradas com obras de arte estimadas em 1,5 bilhão de dólares. Em sua festa de aniversário, para comemorar meio século de existência, o Sultão contratou para animar a “festinha” ninguém menos que Michael Jackson (1958-2009). Essa festa, regada a muita comida e bebida, tinha apenas 300 mil súditos convidados. O preço dessa festinha? Vinte e cinco milhões de dólares.
O tráfico de mulheres e a venda de órgãos
Junto ao tráfico de drogas, um dos mercados mais rentáveis em escala mundial é, sem dúvida, o tráfico de mulheres. Segundo estimativas, esse “mercado” gera receitas anuais de US$ 32 bilhões no mundo todo, e 85% desse dinheiro vem da exploração sexual, que só na América Latina e no Caribe fez mais de 100 mil vítimas por ano.
Partes desses dados são compiladas pela Organização Internacional de Migrações (OIM) que declara em relatórios que uma mulher pode ser “vendida” para uma rede de exploração sexual por entre US$ 100 e US$ 1.600. As vítimas das organizações que traficam pessoas para obrigá-las a exercer a prostituição geram um lucro líquido de US$ 13 mil para seus exploradores.
Tão grave quanto o tráfico de mulheres é o comércio de venda de órgãos humanos. Há casos paradigmáticos sobre esse assunto.
Na China, vários são os sites especializados no assunto que tratam de todos os detalhes envolvendo a compra, o doador e o receptor de rins, córneas, coração, pulmão e até mesmo medula óssea.
A propaganda online no site do Centro Internacional de Assistência aos Transplantes da cidade de Shenyang, no nordeste do país, anuncia, por exemplo, sem qualquer constrangimento sua atividade comercial:
Doadores de órgãos disponíveis imediatamente! Entre em contato conosco antes de ficar muito doente! Um conselho: saiba que a melhor temporada se dá em dezembro e em janeiro, quando o número de doadores é mais elevado; isso lhe permitirá esperar por um período de tempo mínimo antes de ter um órgão transplantado.
No referido site, os preços estão discriminados sem qualquer empecilho: US$ 62.000 para um rim, uma centena de milhares de dólares para um fígado, um pâncreas com variação de preços entre US$ 150.000 e 170.000, um coração que sai pela bagatela de US$ 160.000 e, por fim, uma córnea a US$ 30.000.
Como se percebe, o mercado realmente é repleto de excentricidades. Talvez seja por isso que, levando-se em conta todos esses exemplos, Adam Smith (1723-90) tenha dito sem saber que o mercado se tornaria extremamente excêntrico, que “o consumo é a única finalidade e o único propósito de toda produção”. Se sempre tem alguém disposto a ofertar algo, ainda que seja uma “mercadoria” excêntrica, certamente, irá, cedo ou tarde, encontrar um comprador.
Notas:
(1) COWEN, Tyler. “Descubra seu economista interior”. 2009:169
(2) Tafofobia (ou tafefobia) é o medo mórbido de ser enterrado vivo.
O Autor:
Marcus Eduardo de Oliveira é economista e professor universitário. Mestre em Integração da América Latina (USP) e Especialista em Política Internacional pela Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo. Autor de “Conversando sobre Economia” (2002) e “Provocações Econômicas” (no prelo).
Uma história para o dia de Natal
Dezembro 24, 2009
Conta uma antiga e conhecida lenda, que há cinco mil anos três cedros nasceram nas lindas
florestas do Líbano. Como todos nós sabemos, os cedros levam muito tempo para crescer, e estas árvores
passaram séculos inteiros pensando sobre a vida, a morte, a natureza, os homens.
Presenciaram a chegada de uma expedição de Israel, enviada por Salomão, e mais tarde viram a
terra coberta de sangue durante as batalhas com os assírios. Conheceram Jezabel e o profeta Elias,
inimigos mortais.
Assistiram a invenção do alfabeto, e deslumbraram-se com as caravanas que passavam, cheias de
tecidos coloridos.
Um belo dia resolveram conversar sobre o futuro.
- Depois de tudo o que tenho visto - disse a primeira árvore - quero ser transformada no trono do
rei mais poderoso da terra.
- Eu gostaria de ser parte de algo que transformasse para sempre o Mal em Bem - comentou a
segunda.
- Por meu lado, queria que toda vez que olhassem para mim pensassem em Deus - foi a resposta
da terceira.
Mais algum tempo se passou, e lenhadores apareceram. Os cedros foram derrubados, e um navio
os carregou para longe.
Cada uma daquelas árvores tinha um desejo, mas a realidade nunca pergunta o que fazer com os
sonhos; a primeira serviu para construir um abrigo de animais, e as sobras foram usadas para apoiar o
feno. A segunda árvore virou uma mesa muito simples, que logo foi vendida para um comerciante de
móveis. Como a madeira da terceira árvore não encontrou compradores, foi cortada e colocada no
armazém de uma cidade grande.
Infelizes, elas se lamentavam: “ Nossa madeira era boa, e ninguém encontrou algo de belo para
usá-la”.
Algum tempo se passou e, numa noite cheia de estrelas, um casal que não conseguia encontrar
refúgio resolveu passar a noite no estábulo que tinha sido construído com a madeira da primeira árvore. A
mulher gritava, com dores do parto, e terminou dando a luz ali mesmo, colocando seu filho entre o feno e
a madeira que o apoiava.
Naquele momento, a primeira árvore entendeu que seu sonho tinha sido cumprido: ali estava o
maior de todos os reis da Terra.
Anos depois, numa casa modesta, vários homens sentaram-se em torno da mesa que tinha sido
feita com a madeira da segunda árvore. Um deles, antes que todos começassem a comer, disse algumas
palavras sobre o pão e o vinho que tinham diante de si. E a segunda árvore entendeu que, naquele
momento, ela sustentava não apenas um cálice e um pedaço de pão, mas a aliança entre o homem e a
Divindade.
No dia seguinte, retiraram dois pedaços do terceiro cedro, e o colocaram em forma de cruz.
Deixaram-no jogado em um canto, e horas depois trouxeram um homem barbaramente ferido, que
cravaram em seu lenho. Horrorizado, o cedro lamentou a herança bárbara que a vida lhe deixara.
Antes que três dias decorressem, porém, a terceira árvore entendeu seu destino: o homem que ali
estivera pregado era agora a Luz que tudo iluminava. A cruz feita com sua madeira tinha deixado de ser
um símbolo de tortura, para transformar-se em sinal de vitória.
Como sempre acontece com os sonhos, os três cedros do Líbano tinham cumprido o destino que
desejavam - mas não da maneira que imaginavam.
Paulo Coelho
O investidor e o caos
Dezembro 9, 2009
Recordo-me que, investidor bem iniciante, apostei algumas fichas nas blues chips – consideradas as menos arriscadas pela liquidez extraordinária. No início do fatídico ano de 2008 se falava apenas em uma tal crise que estaria por vir em decorrência da farra do crédito imobiliário americano que atingiria frontalmente os balanços de bancos em todo o mundo. Como excelentes precificadoras de boatos, as bolsas mundiais tiveram dias de fortes quedas seguidos de repiques espetaculares.
Tirei proveito dessa volatilidade que se intensificou bastante entre março e maio do mencionado ano. Meses atrás havia entrado em fundos lastreados na Petrobrás e na Vale do Rio Doce, mas era extremamente desagradável ter como retorno a rentabilidade média diária dos papéis dessas duas empresas. De investidor de fundos com resultados modestos passei a investidor com retorno superior a 10% em apenas dois meses. A confiança era tanta que não hesitei em desafiar o noticiário nebuloso dos Estados Unidos e marcar posições em outras empresas.
Decidi formar uma carteira bem diversificada composta de papéis de consumo interno – consideradas defensivas por analistas -, setor bancário petróleo e mineração. Afoito com os resultados e inexperiente nos movimentos das bolsas firmei posição acreditando em excelentes resultados no médio prazo. A tal crise sobre a qual se especulava desde janeiro parecia algo distante; devaneios daqueles que fazem os deslocamentos dos mercados acontecerem em busca de oportunidades de entradas ou saídas nas duas pontas.
Em setembro de 2008 uma notícia bombástica confirma a veracidade do problema: o banco Lehman Brothers, o quarto maior dos Estados Unidos, pede concordata após mal sucedidas negociações com o governo desse País para um possível socorro. Funcionários desolados deixando as dependências da imponente sede com seus pertences em caixas de papelão após uma catastrófica queda de 5% da Dow Jones Industrial Average marcaram o ‘setembro negro’. Nos meses seguintes, as bolsas mundiais proporcionariam um show de horrores regado a muita histeria, desespero e falta de estratégia.
Tenho para mim, depois que o pior parece ter passado e a crença na segunda perna do W se enfraquece, que sob o ponto de vista do investidor individual alguns aspectos foram determinantes para as fortes perdas que aconteceram até novembro de 2008: primeiro, o pânico estabelecido que proporcionou circuit breaks nos primeiros quinze minutos de pregões com volumes baixíssimos e gaps de abertura gigantescos; segundo aquela paralisia que atinge o iniciante quando a posição não tem êxito e corre pelas veias aquele desejo incontrolável de recuperá-la, o que o leva a reforçar a posição perdedora, acarretando em mais perdas.
Continuando, aquela crença quase inabalável do ‘um dia recupera’, que leva o investidor à letargia de esperar o fundo do poço para começar a vislumbrar em um período X de tempo uma recuperação de suas posições; e por fim, o desconhecimento das possibilidades que o mercado oferece na ponta vendedora, o que poderia ter proporcionado ganhos extraordinários que compensariam o prejuízo na outra ponta. Particularmente, cometi o erro de reforçar posições perdedoras, mas não hesitei em vendê-las para aguardar o fundo da crise e buscar no mercado a compensação das perdas. A compra dos papéis preferenciais da Petrobrás a 16,84 reais deu início à minha estratégia de cobrir as perdas operando diariamente.
Após um ano da bagunça total que se estabeleceu nos mercados, estou convicto que a atitude de vender posições, esperar o fundo do poço ou algo próximo dele para operar diariamente e recuperar os prejuízos decorrentes foi demasiadamente acertada. Com uma rentabilidade parcial de cerca de 70% no presente ano de 2009 e uma bagagem razoável de mercado obtida com as duras lições da crise alerto sobre a necessidade de respeitar o Senhor Mercado e suas incongruências, já que os imponderáveis sentimentos dos investidores estão acima de quaisquer análises técnicas, fundamentalistas ou de outros gêneros.
Colaborou: Artur Salles Lisboa de Oliveira
Finanças para Mulheres
Novembro 16, 2009
Obviamente que nós falamos melhor sobre aquilo que experimentamos ou vivemos né? Pois bem, então hoje vou falar sobre um assunto que eu domino: o controle sobre as finanças sendo mulher.
Não tem jeito, não há como negar: os gastos das mulheres são totalmente diferentes dos gastos dos homens e, na grande maioria das vezes, são maiores. Não estou dizendo que não conseguimos controlar os nossos gastos, mas o problema maior é que querendo ou não – algumas pessoas podem discordar – temos obrigações e necessidades inerentes ao nosso sexo. Vou ser mais clara: precisamos sempre estar com a aparência impecável, cabelos arrumados, unhas feitas, roupas que nos agradam, e mais algumas coisinhas, e o dinheiro vai embora e nem percebemos…
Por isso a dica de hoje é exatamente sobre isso, como se adequar financeiramente tendo todas essas obrigações com você mesma. Não que sejam realmente obrigações, mas se sentir bem e bonita pra muitas de nós parece não ter preço… Mas tem!
Vamos começar por aquilo que mais pesa no bolso, o gasto com vestuário. O que difere nós mulheres dos homens nesse aspecto é que pra nós existe uma variedade sem fim de roupas de todos os estilos, cores e preços, e sempre queremos ter uma novidade no guarda-roupa, ou uma roupa mais bacana pra uma ocasião especial. Não há pecado nenhum nisso! O pecado é não pesquisar preços e agir por impulsividade. Normalmente, se estamos precisando de uma blusa de frio, compramos na primeira loja que achamos a mais parecida com aquilo que mentalmente queremos. Isso é fatal pra gastar dinheiro a mais. Seria interessante dar uma olhada nas outras lojas em blusas similares, às vezes até iguais, para comparar os preços e comprar, obviamente, na loja em que a qualidade for igual, mas com um preço menor.
Outra dica antiga, mas que é muito válida na hora de economizar com vestuário, é aproveitar as trocas de estação. Roupas mais básicas que não saem de moda podem custar muito menos quando compradas nas liquidações de troca de estação. Os descontos realmente são grandes, podendo variar de 30% a 80% em média. Dessa forma, você sempre terá uma roupa legal pagando muito menos por ela.
Com relação à aparência em geral, ao invés de gastar em média R$ 80 por semana com hidratação do cabelo, você pode gastar metade disso alternando uma hidratação no salão e outra em casa, com produtos especializados comprados em perfumaria. Sei que nunca é a mesma coisa, mas a hidratação em casa é só pra fazer uma manutenção na feita no salão.
Com as unhas, podemos usar as mesmas dicas: compre o esmalte que deseja usar e diminua as vezes que você vai fazer a unha. Caso o esmalte descasque, você poderá arrumar sem a necessidade de voltar ao salão, fazendo com que você não precise ir toda a semana ao salão.
Agora o mais importante e que eu já mencionei nos itens acima: não compre por impulso nunca! Deixe os cartões de crédito e cheques em casa (principalmente quando você sabe que vai a lugares tentadores como shoppings e afins). Eles são a maior tentação do mundo devido à facilidade de comprar parcelado, ficando também muito fácil contrair dívidas que vão deixar sua vida financeira um caos. Saia sempre com dinheiro suficiente para seu compromisso e um pouco a mais para qualquer imprevisto, evitando assim se arrepender de alguma coisa que fizer com seu dinheiro. Até mais!
Ingrid Barth
Em defesa dos genéricos
Novembro 12, 2009
A discussão referente à apreensão pela alfândega holandesa em dezembro do ano passado, de um carregamento do medicamento genérico indiano losartan, aplicado em tratamento para pacientes com pressão alta, pode levar Brasil e Índia a unirem-se na luta em defesa dos genéricos em processo formal na OMC (Organização Mundial do Comércio) contra a União Européia.
Em sua defesa a União Européia afirma ter direito de inspeção a medicamentos genéricos em trânsito para proteção de seus cidadãos e dos países em desenvolvimento investindo contra remédios falsificados. Porém, tal apreensão afronta diretamente o Princípio do Tratamento Especial e Diferenciado para Países em Desenvolvimento, que garante vantagens tarifárias e medidas mais favoráveis que deverão ser realizadas pelos países desenvolvidos. O principal argumento de Brasil e Índia é de que a apreensão é a execução de um modelo de defesa criado pelos países ricos para evitar tal tratamento especial.
O mercado farmacêutico em todo o mundo é caracterizado pelos altos índices de investimento em Pesquisa e Desenvolvimento, devido à complexidade no processo de descoberta de novas drogas que abrange desde os gastos com tecnologia até os custos com o insucesso de tais pesquisas para que se descubra a fórmula do medicamento eficaz contra a doença e que possa proporcionar retorno à empresa.
No Brasil a política para o mercado farmacêutico encontra amparo na Lei de Patentes (Lei 9.279 de 1996), onde após a descoberta do medicamento terá proteção patentária durante os 20 anos subseqüentes, podendo após este prazo ser copiado por outras empresas, e a Lei de Genéricos (Lei 9.787 de 1999) em que o produto, passando por um teste e sendo comprovadamente substituto seguro do medicamento de referência, ganha um selo definindo-o como genérico.
Com a aplicação destas duas leis o governo trabalha para garantir competitividade ao setor, evitando abuso nos preços, pois com maior oferta de medicamentos o paciente pode procurar o mais barato e que se adapta a sua realidade financeira sem prejuízo quanto à segurança de sua saúde, pressionando as empresas farmacêuticas a reduzirem seus preços para não perder espaço no mercado.
Criada através da incorporação do GATT (Acordo Geral de Tarifas e Comércio) em sua estrutura, a OMC tornou-se em 1994 uma instituição especializada e autônoma das Nações Unidas, encontrando-se no mesmo patamar que o FMI e o Banco Mundial.
Com o objetivo de regular as disparidades econômicas e comerciais existentes no mundo, principalmente aquelas que estejam ligadas à dependência dos países pobres em relação aos ricos, consolidou-se então como ordenadora do comércio internacional.
O Brasil já conta com um histórico de sucesso em demandas apresentadas à OMC, bem como pela maior credibilidade devido a sua participação no G-20 e membro do BRIC (Brasil, Rússia, Índia e China). No caso dos genéricos luta-se principalmente pela defesa do conteúdo da Constituição Federal de 1988, tentando aproximar-se ao máximo do ideal acesso de todos à saúde pública e em defesa das pessoas que não tem condições de arcar com os custos elevados dos remédios necessários a sua sobrevivência.
Darlon Massirer
Aluno do curso de Direito da Univille
Economia tem a ver com felicidade
Novembro 2, 2009
O lado consumista do ser humano recomenda que a felicidade repouse na aquisição de produtos e serviços diversos, e, de preferência, em grandes quantidades. Somente por esse pormenor já bastaria para analisarmos a economia pelos seus dois lados mais influentes: a oferta e a demanda. Até mesmo porque tudo parece ser uma questão de oferta e demanda; não à toa esse é um dos principais conceitos da economia.
Evidentemente, junto à oferta e demanda, deve-se levar em conta à variável “preço”; condição essa essencial para deslocar (para cima ou para baixo) a quantidade procurada (demanda) em razão da quantidade fornecida (oferta); isso tudo, é claro, num lugar específico chamado “mercado”.
Utilizando a variável “preço” queremos, por sua vez, apenas para sintetizar essa discussão e não torná-la enfadonha, fazer um link com a variável “renda”, que aponta, essa sim, para a real possibilidade de compra ou recusa dos diversos bens e serviços dispostos nos mercados.
Portanto, pensando friamente dessa forma, ou seja, (no ato de consumir), quanto mais se consumir, mais a felicidade aumenta; ainda que seja não apenas sobre um consumo necessário.
Esse consumo excessivo, que vai além das necessidades básicas, encontra nas ciências econômicas amparo no conceito “conspícuo”, ou seja, aquele consumo supérfluo, típico do consumidor voraz pronto para alimentar com seu consumo sem limites a oferta. Ao economista Thorstein Veblen devemos esse conceito desde 1899.
Portanto, se a felicidade repousa no ato de consumir, como querem alguns, basta consumir cada vez mais para ser muito feliz. Afinal, consome-se de tudo (até mesmo coisas sem sentido) e, em geral, em quantidades que agradam muito aos ofertantes. Desse modo, como a sociedade, em geral, é muito consumista, pressupõe-se que há muita gente feliz. Portanto, nesse pormenor, a felicidade é igual ao consumo e o consumo leva a felicidade. Certo ou errado?
A diversificação da oferta – o poder da demanda
Tamanha é a diversificação da oferta – cuja demanda parece sempre disposta a responder aos estímulos -, que os economistas, além de calcularem a sensibilidade (elasticidade) da demanda e da oferta em relação aos preços, chegam até mesmo a definir certo tipo de mercadoria chamando-a de “mercadoria não rival”. Essa é aquela mercadoria cujo consumo feito por uma pessoa não impede que outra também a consuma, como um passeio pelo parque público nas manhãs de domingo, a leitura em público de um poema, assistir ao filme do momento no cinema lotado ou mesmo no DVD junto aos familiares.
Pela pura lógica do consumo, o poder parece então residir, de fato, nas mãos dos consumidores. John K. Galbraith, a esse respeito em The Economics of Innocent Fraud: Truth For Our Time nos diz que “O poder de última instância é o do consumidor. A escolha do consumidor dá forma à curva de demanda. (…) A curva de demanda confere autoridade ao consumidor”.
É dessa forma então que a teoria econômica foi esboçada desde seus primeiros passos. A prática do consumo é o determinante do vigor econômico. E vigor econômico é o que todos queremos, não é mesmo?
A economista Diane Coyle em Sexo, Drogas e Economia (leitura imperdível para quem gosta de ler economia fora do padrão acadêmico dos manuais) corrobora com essa afirmação apontando que “o vigor econômico tem a ver com consumo, não com produção”. Nós acrescentamos que o consumo tem a ver com trabalho, que tem a ver com renda…e, quanto mais renda, mais consumo, mais vigor econômico. Entendemos definitivamente que a variável “consumo” é a responsável por puxar qualquer economia para cima. Aqueles que querem que a felicidade esteja relacionada ao consumo certamente acrescentariam que, dessa forma, pela estrita lógica consumista, alargar-se-á a oportunidade de alcançar a felicidade.
Essa parece ser a estrutura econômica balizada pelo consumo. Enganam-se aqueles que pensam que a base do capitalismo é a produção. A base (fundamento) é o consumo. Alguém já disse que acabar com os consumidores é matar a galinha dos ovos de ouro do capitalismo.
Retornando à idéia de felicidade há algo ainda que precisa ser inquirido.
Será mesmo que a felicidade é apenas consumir, consumir e consumir? Será que a felicidade pode mesmo ser comprada qual fosse uma mercadoria disposta em alguma prateleira?
Maximização da utilidade esperada
Embora o dinheiro não compre felicidade, é um pré-requisito para isso. Assim como o trabalho é o pré-requisito para o dinheiro. Em geral, os economistas querem que todos sejam felizes, e não apenas ricos. Até mesmo porque os economistas caracterizam o comportamento das pessoas quando fazem escolhas com base na maximização da utilidade esperada (espera-se escolher a opção que lhe proporciona a maior utilidade média).
Para entramos nessa discussão, convém, antes, lembrarmos que a economia é construída em cima da estrutura da utilidade, como bem aponta Diane Coyle na obra acima citada.
Utilidade (utilitarismo) para os economistas só faz sentido se pensada em forma de benefício, de bem-estar.
A base da Teoria do Consumidor passa pelo conceito de utilitarismo. Esse pode ser definido como o bem que se identifica com o útil.
Os utilitaristas – Jeremy Bentham e John Stuart Mill - são claros a esse respeito: “a felicidade está na aquisição daquilo que nos é útil”.
O útil, grosso modo, leva à satisfação, leva ao prazer, leva ao bem-estar. Essa é, em essência, o objetivo do economista: proporcionar oportunidades e escolhas disponíveis a todos no dia a dia, auxiliando o maior número de pessoas na busca de algo fundamental: o bem-estar.
Bem-estar, então, por sua vez, se liga de forma íntima à felicidade. Pelo menos é o que diz a ciência econômica quando recomenda a seus fiéis consumidores que maximizem a utilidade esperada, ou seja, que no ato de tomada de decisões (não somente no ato de consumir) cada indivíduo alcance o maior nível possível de utilidade.
Conquanto, nem sempre essa utilidade está relacionada apenas ao ato de consumir, como parece recomendar a lógica mercadológica. Posso perfeitamente obter utilidade ao encontrar alguém, ao falar com alguém, ao pensar em algo prazeroso, ao ler um poema agradável, ao respirar um ar puro, ao contemplar uma obra de arte ou um monumento público. Estou assim consumindo algo? Sem dúvida; no entanto, não estou tendo nenhum dispêndio para isso. Para desespero do capitalismo, nem sempre um consumo vem seguido de gastos.
Resultados sociais
Se a economia é uma ciência social, nada mais justo que seus resultados apresentem um significado social – e não apenas econômico, como quer a lógica econômico-consumista-mercadológica.
No entanto, esse lado social imerso nessa lógica econômica tem ficado à margem das decisões que priorizam, apenas, e tão somente, o lado econômico. O lado social sempre foi – e continua a ser – relegado a quinto plano.
Pelo lado econômico, o que tem validade são os ganhos financeiros, não os prazeres-utilitários que não envolvem somas de dinheiro. O que interessa, para o lado econômico, é o predomínio econômico-financeiro, não a abrangência social. Essa é a razão da existência de algumas discrepâncias que, em nosso entendimento, beiram a patologia.
O Human Development Report 1998 (p.37) atestava que “o mundo tem recursos mais do que suficientes para acelerar o desenvolvimento humano para todos e para erradicar as piores formas de pobreza do planeta”. Para tanto, a fim de universalizarem-se os serviços sociais básicos bastaria US$ 40 bilhões. Isso significa míseros 0,1% da renda mundial. Isso seria, portanto, o lado social sendo aflorado. Mas não é o que interessa aos grandes grupos que detém e dominam a cena econômica. Passados mais de dez anos do referido Relatório, nada mudou. A lógica econômica continua com a mesma recomendação: vender, vender, vender e, de preferência, excluir o lado social nessa vendas.
Nessa linha de análise as distorções continuam grotescas. Para assegurar educação básica para todos precisaríamos de US$ 6 bilhões, mas não se consegue esse valor. No entanto, os gastos em cosméticos apenas nos EUA são de US$ 8 bilhões ao ano, em média. Para assegurar água e saneamento para todos seriam necessários US$ 9 bilhões. Mas, não há “recursos” para isso. Preferem-se gastar US$ 11 bilhões em sorvetes na Europa. Saúde e nutrição básica para todos exigem cifras de US$ 13 bilhões suplementares por ano. Mas não há “dinheiro” para isso. Como o que predomina é a lógica do consumo sem sentido, a Europa e os EUA juntos gastam, ao ano, US$ 17 bilhões em ração para animais de estimação. Fora isso, apenas no Japão, os executivos se divertem em entretenimentos que “alimentam os desejos da carne” torrando por ano US$ 35 bilhões. Na Europa se gasta US$ 50 bilhões em cigarros e em bebidas alcoólicas todos os anos (em média) e o mundo literalmente “queima” US$ 400 bilhões em narcóticos.
Definitivamente, “o mundo não é uma mercadoria” como nos ensina o professor Henrique Rattner e, “nem tudo está à venda” (everything for sale) como alerta Robert Kuttner, para outra situação de desespero do sistema capitalista.
Logo, a felicidade, nesse sentido, não pode (e nem deve) repousar suavemente sobre o “nobre” ato do consumo exagerado que exige, por conseqüência, elevados dispêndios.
Há algo muito mais interessante que leva à felicidade, ainda que a publicidade nos bombardeie diariamente recomendando o consumo a qualquer custo.
E a economia tem tudo a ver com isso.
Basta atentarmos para o seguinte: onde a economia estará no futuro depende daquilo que milhões de nós faremos nesse meio tempo até lá. Cabe a nós decidirmos o futuro. O futuro nos pertence e a felicidade, certamente, há de nos esperar na próxima esquina abraçada a maximização da utilidade esperada.
Marcus Eduardo de Oliveira
Economista, mestre pela USP e professor universitário. Especialista em Política Internacional pela Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo (FESP)
Por um Novo Humanismo na Economia
Outubro 19, 2009
Parece ser consenso que a humanidade vive uma crise civilizatória. A fome que atinge 1 bilhão de seres humanos talvez seja a prova incontestável que as coisas não andam bem em matéria de dignidade e respeito ao próximo, termos esses caros a sociedades que se encontram “desconectadas” das boas e adequadas políticas públicas sociais. Até mesmo porque, nesse sentido, uma polêmica ronda essa discussão. Dizem, alguns, que temos que produzir mais porque somos muitos. Será isso verdade? Não seria melhor mudarmos o foco: produzirmos melhor (com qualidade), e não mais (diminuir a quantidade). Temos que “distribuir” e não “concentrar”.
No que toca a ignomínia da fome, temos que evitar o desperdício que beira cifras indecentes de 30% a 40% da produção de grãos e distribuir melhor os alimentos cuja produção atual é suficiente.
A produção de alimentos é suficiente
A produção mundial de alimentos dos dias de hoje dá conta suficiente das 6,7 bilhões de bocas a serem alimentadas. De acordo com a FAO (Fundo para Agricultura e Alimentação – ONU), entre 1950 e 2000, a produção mundial de grãos mais que triplicou, passando de cerca de 590 para mais de 2 trilhões de toneladas métricas ao ano. De 1950 a 1975, a produção de grãos aumentou em média 3,3% ao ano, um percentual maior do que o do crescimento populacional, de 1,9% ao ano.
No entanto, o “probleminha” da alocação/distribuição dessa produção nos lugares que mais carece de ajuda continua a não acontecer. E, assim, os que tanto precisam acabam ficando sem acesso. Menos da metade dos grãos hoje em dia é destinada à alimentação, enquanto a maior parte serve para fabricar rações animais, biocombustíveis e outros produtos industriais. Além disso, deve-se computar ainda o efeito de pragas sobre a plantação e o apodrecimento entre a colheita e o consumo. O que falta para uns, sobra para outros. É a distribuição que não é feita a contento.
Desse modo, temos que de um lado há um 1 bilhão de famintos; do outro, 1 bilhão de obesos.
E assim, outros e outros “probleminhas” que giram em torno da má distribuição de recursos e rendas vão se agravando, contribuindo, sobremaneira, para desumanizar ainda mais as relações entre nossos pares.
Em especial sobre a questão dos subnutridos, cabe ressaltar que esse mal acomete uma entre três crianças. Em números absolutos, a subnutrição e a fome crônica afetam aproximadamente 200 milhões de pessoas na Índia; mais de 200 milhões na África; 40 milhões em Bangladesh; 15 milhões no Afeganistão. O número de mortes por causas relacionadas com a fome é da ordem de nove milhões por ano. Isso resulta em uma média de 25 mil mortes por dia.
Percebe-se, com isso, que os números que perfazem a desigualdade são gritantes e inadmissíveis.
A conta disso é bastante simples: tem pouca gente ganhando muito, enquanto há muita gente que nada está ganhando. A riqueza de uns está sendo literalmente construída sobre a pobreza de milhões de pessoas.
O consumo excessivo de uns é a contrapartida da escassez de outros. Para uns sobra o que tanto falta a outros tantos. É o “desequilíbrio” que parece assim regular as atividades da economia gerando, na ponta final, mais desigualdade.
A falta de equilíbrio
Se as relações econômicas fossem, ao menos, próximas do equilíbrio, bastaria dividir a produção mundial (60 trilhões de dólares) por 6,7 bilhões de pessoas e obteríamos algo como 9 mil dólares por pessoa.
Mas, sabemos que não é bem assim que a coisa funciona. E sabemos também que a desigualdade não é natural, é imposta. E, sendo imposta, alguém está no “centro” dessas decisões dirigindo o destino de muitos que vão sendo condenados à miséria e a exploração. É a desumanização da economia que provoca a desumanização de nossos pares.
E a exploração está por todos os lados, incluindo até mesmo os que estão fora desse “deus-mercado” que é abençoado pelo “consumo excessivo”, regulado pela lógica mercadológica que defende que mais e mais produtos devam ser “empurrados” para um número cada vez mais crescente de compradores. É a lógica perversa do consumo excessivo que prioriza apenas o consumidor detentor de poder aquisitivo.
Nesse pormenor, o velho e bom Marx chegou a afirmar que “é melhor ser explorado pelo capitalismo do que não ser explorado por ele”. Marx sentenciava que ao não ser explorado pelo capitalismo, o trabalhador visivelmente não “existia”, pois se encontrava fora do mercado de trabalho (no desemprego) na condição de nem mesmo ser “explorado pelo sistema” (excluído).
Percebemos então que a exclusão social é de tamanha ferocidade que atinge até mesmo quem dela não contribui nem para o lucro do capitalista, nem para aumentar o número de produtos disponíveis no mercado. Em nossa opinião, esse é o “excluído dentro da exclusão” que contribui, assim, grosso modo, para a total desumanização das atividades.
Cabe reiterar que os números dessa “desumanização” são alarmantes. Do lado dos óbitos são: 10 milhões de crianças mortas a cada ano por problemas com “insegurança alimentar”; 25 milhões de vítimas do HIV/AIDS até os dias de hoje; 1 bilhão e meio de pessoas sem acesso à água potável; 3 milhões de mortes ao ano na África em decorrência da malária; meio milhão de mulheres que morrem no parto por deficiências no sistema de saúde. Acrescenta-se a isso o aquecimento global que provoca o desequilíbrio do ecossistema a ponto de chegarmos a seguinte conclusão: não é o planeta Terra que está prestes a entrar em decomposição, somos nós. Não são os animais que entrarão em extinção, somos nós. Não é o habitat natural que soçobrará, somos nós.
O rumo que a economia tomou nos últimos quatrocentos anos apenas reforça essa idéia. No início, com os clássicos ministrando as primeiras lições, no centro da análise econômica estava o indivíduo. Era a ação humana – palavra cara a Escola Austríaca de Economia - o fator responsável pelos avanços.
Com o passar dos tempos e com a chegada dos marginalistas na cena econômica, a análise matemática ganhou relevância e as necessidades humanas deixaram de ser o ponto fundamental de preocupação.
O que fizeram então esses analistas econômicos da Escola Marginalista? Jogaram para escanteio o cabedal sócio-econômico que mirava as necessidades humanas e estabelecia o bem-estar como meta. Desde então, a economia se “matematizou” e, aos poucos, o social se tornou apêndice da matemática econômica.
Disso surge uma pergunta inevitável: o que tem que ser feito para resgatar o foco social e humano que um dia caracterizou a abordagem das ciências econômicas?
O resgate necessário
Precisamos praticar a Economia Solidária, a Economia Sustentável, a Humanização da Economia na qual o dinheiro não seja o ponto central. É simples? Não. Porém, não é impossível.
Para tanto, “É preciso reinventar uma economia da convivência”, diz Edgar Morin. Dom Pedro Casaldáliga, nessa mesma linha, fala em “humanizar a humanidade”; enquanto o educador Marcos Arruda escreve sobre tornar “real o possível”.
Mas, o que é “real” e o que significa, de fato, o “possível”? Real é desejarmos um mundo melhor para todos, sem exceção, nem discriminação. Possível é praticarmos isso mediante a cooperação e a solidariedade. No lugar da competição coloquemos a cooperação. Em lugar do individualismo, solicitemos a coletivismo, a ajuda mútua, a socialização dos benefícios.
A canção popular entoada em cantos religiosos profetiza que “Deus criou o infinito para a vida ser mais”. Viver é isso. Viver é conviver. Não nascemos sozinhos, não estamos isolados, não habitamos ilhas em isolacionismo perpétuo. Vivemos em comunidade. Em comum unidade. Logo, vivenciamos o coletivo, não o individualismo.
No entanto, só vale a pena viver em um mundo onde esse mundo mereça ser vivido. Do jeito que está, com as desigualdades sociais e econômicas esparramando miséria e indecência por todos os lados, até mesmo sonhar a possibilidade de construir uma vida igualitária e digna torna-se algo espinhoso. Parte daí a necessidade de humanizar a economia, visto que a economia “estuda” o comportamento dos agentes econômicos. Assim, por essa casual definição, a economia estuda o “nosso” comportamento, porque somos, antes de qualquer outra coisa, agentes dessa transformação que se faz necessária.
É nesse sentido que desejamos promover o resgate do verdadeiro fundamento da ciência econômica e torná-la útil em nosso favor, usando a Economia como instrumento da construção do bem comum. Nesse pormenor, cabe ao economista entender o mundo e propor alternativas.
Ladislau Dowbor nos diz que “a economia é um meio que deve servir para o desenvolvimento equilibrado da humanidade, ajudando-nos, como ciência, a selecionar as soluções mais positivas, a evitar os impasses mais perigosos”.
Em nosso entendimento, a economia só faz sentido de ser e torna-se útil se, e somente se, agrupar em seu intento crescimento econômico (equilibrado), equilíbrio ecológico (meio ambiente sustentável) e progresso social (justiça e equidade). Fora disso, a Economia encontra-se totalmente desconectada da realidade.
Marcus Eduardo de Oliveira
Economista, mestre pela USP e professor universitário. Especialista em Política Internacional pela Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo (FESP).
Contato: prof.marcuseduardo@bol.com.br

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