Economia com face mais humana
7 de fevereiro de 2010
A Economia (enquanto ciência e atividade produtiva) somente será viável se for humana, para o homem e pelo homem. Essa frase, interessante pela sua abrangência social, é atribuída ao papa João Paulo II (Karol Voitjila, 1920-2005). O fato é que uma economia com face mais humana, preocupada com a questão social, tem sido constantemente sufocada em nome de modelos econômicos distorcidos que são dirigidos em favor de ganhos na escala especulativa.
Modelos econômicos, em geral, aqui e acolá, têm sido desenhados para atingir objetivos no curto prazo, quase sempre apontando para a necessidade de fazer a produção crescer. Acontece que buscar maior produção não assegura, por conseqüência, que todos participação dela ou terão sua fatia disponível para abocanhar o bolo do crescimento econômico. Isso, por si só, já nos permite afirmar que crescimento não rima com desenvolvimento; e que, por definição mais ampla, significa ainda dizer que crescer não permite se desenvolver como mera contrapartida. Desenvolvimento passa por uma abordagem bem mais ampla envolvendo, no bojo, melhoria substancial na vida dos mais necessitados.
Dessa constatação parte uma provocação e um chamado a quem se interessa por construir uma economia mais humana e menos tecnicista em seu sentido capitalista-espoliador. A provocação é simples: precisamos enveredar esforços no sentido de lançar-se um olhar renovador sobre a economia para, a partir disso, entender e propor alternativas a esse mundo-econômico repleto de injustiças e distorções. O objetivo disso tudo é apenas um: criar modelos econômicos que permitam melhorar a vida de milhões de pessoas. Esse é, certamente, um dos grandes desafios que o economista moderno desejoso de ajudar a construir um mundo onde todos ganham precisará enfrentar. Para tanto, uma ruptura com a tradicional teoria econômica precisa acontecer. Nesse sentido, o eixo central da economia – base da economia tradicional – não pode ser estritamente o mercado e, o objeto, a mercadoria; mas, antes, o indivíduo e suas necessidades básicas e peculiares. Que a Ciência Econômica “carregada” por todos aqueles que vislumbrem a necessidade de mudar os modelos econômicos para a construção de um mundo melhor seja posta no caminho de se construir, de forma sólida, a igualdade entre os homens.
As diversas crises que a economia e a sociedade, por não raras vezes, são (e tem sido) acometidas servem para acender a chama da renovação e da urgente mudança, até mesmo porque é inaceitável aceitar pacificamente a imposição de certas “ordens” ditadas pelos abonados mandantes da ordem estabelecida.
Amartya Sen, um dos economistas que mais tem trabalhado a questão do social em torno da análise econômica, a esse respeito, certa vez disse que: “É difícil entender como uma ordem mundial compassiva pode incluir tanta gente atormentada pela miséria extrema, pela fome persistente e por vidas miseráveis e sem esperança, e por que a cada ano milhões de crianças inocentes têm de morrer por falta de alimentos, assistência médica ou social”.
Talvez seja por isso que certas situações causam tanto incômodo. Vejamos, por exemplo, que os dentes afiados da financeirização internacional que movimentam, em termos especulativos, 2 trilhões de dólares por dia, nos dilaceram a carótida, nos jogam de bruços ao chão, nos tornam ínfimos e raquíticos perante a força do grande capital. Disso resulta a constatação que é simplesmente insano, patológico mesmo, “descobrir” essa verdade sabendo ser também verdadeiro que, a cada ano, milhões de pessoas – pobres, miseráveis e indigentes – padecem pela dor física da fome.
Nos dias que correm nesse século XXI que vem carregando 2.000 anos nas costas a contar do nascimento de Cristo, todas as noites, 900 milhões de pessoas – crianças, jovens, idosos, homens e mulheres comuns -, vão dormir de barriga vazia; não pela opção estética do corpo magro e perfeito, mas por terem as bocas esfaimadas; porque os famigerados sistemas econômicos que “manipulam” mercados ao doce sabor do lucro e que pelos mercados são “manipulados” em favor dos rápidos retornos financeiros assim determinam tal ordem ignominiosa.
Isso nos leva a outra reflexão: Em se tratando de economia, não tenhamos dúvidas: as ações econômicas possuem diversas dimensões e impactos múltiplos que afetam substancialmente à qualidade de vida das pessoas; às vezes de maneira positiva ou negativa. Em outras palavras, em economia somos todos responsáveis pelo que acontece. O lamentável fato de presenciarmos gente morrendo de fome num tempo em que o avanço tecnológico é incomensurável, não pode ser moralmente justificável. Quase todos conhecem as maneiras (o modo de fazer) e sabem que os recursos para tirar essa massa incontável de pessoas da indigência estão disponíveis. Nesse pormenor, bastaria, para tanto, menos de 0,5% de um PIB mundial que está batendo na casa dos 65 trilhões de dólares anuais para acabar, de uma vez por todas, com essa sandice.
Nesse sentido, para finalizar vale resgatar aqui as sábias palavras de santo Agostinho quando diz com clareza que “a esperança tem duas filhas lindas: a raiva e a coragem. Raiva do estado das coisas e coragem para mudá-las”. Que tenhamos a coragem para mudar esse cenário de tristeza que são cometidos aqueles que passam fome, em geral determinadas pelas ditas “ordens e modelos econômicos”.
Por Marcus Eduardo de Oliveira
Economista, mestre pela USP e professor universitário. Especialista em Política Internacional pela Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo (FESP). Autor dos livros “Conversando sobre Economia” (Ed. Alínea) e “Provocações Econômicas” (no prelo).

Tiago Luiz Peretti
11/02/2010 - 21:45
Prezado Marcus Eduardo de Oliveira
Sou estudante de economia na Unisinos ( Universidade do Vale do Rio dos Sinos), estou no terceiro semestre e estou me esmiuçando em Keynes ( A Teoria Geral do Emprego do juro e da Moeda), e de todos os artigos ou livros que li ( não só do Keynes), não vejo uma preocupação com o bem social, simplesmente com o bem pessoal e a infinita preocupação com o mercado, levo em conta que o ser humano é um ser que lhe falta saber lidar com o coletivo, jamais colocamos na balança na hora de decidirmos algo o grupo, só o individual. Bom estou tentando mudar isso, acredito que tudo deva se começar pela questão educativa, digo isso não só numa reforma de base, mas também no ensino superior. Na minha singela opinião de um rapaz de 23 anos, o curriculum de economia deveríamos abranger cadeiras de psicologia, por que é de extrema necessidade sabermos mais afundo o comportamento da demanda, e cadeiras sociais para podermos quebrar o paradigmas que existem, os estudantes só pensam em matemática ( não que seja errado), quem sabe um dia iremos em uma conferência internacional e veremos os economistas e lideres mundiais tentando defender uma sociedade igualitária e não como lobos tentando defender o seu espaço. Não estou dizendo que acho errado ganhar dinheiro, somente acredito que todos podem desfrutar das facilidades do nosso mundo, começando com o bem mais simples, o alimento.
Parabéns pela matéria. Vamos juntos lutando por uma sociedade igualitária.
Tiago Luiz Peretti
[Reply]
Edgar Antonio Sbroggio
12/03/2010 - 21:39
Boa noite Tiago, sou economista há quarenta anos e tive as mesmas lutas com o Sr. Keynes. É do currículo. A preocupação social é recente, desde que o mundo está se tornando mais democrático, e o cidadão passou a ter voz. Começou quando percebeu-se que o bem estar contem conflitos melhor do que a repressão. E ainda que a divisão da renda promove consumo, fazendo um giro rápido das riquesas, dando oportunidades a mais cidadãos.
O SR Keynes hoje, seria certamente mais ameno.
[Reply]
alexandre baptista
02/04/2013 - 5:26
De facto a abordagem mais social (ou de grupo) é o que muito falta nos modelos económicos. mas isso não parte de hoje, é um problema mais social do que meramente económico.
Adam Smith nas sua analise chegou a uma evidente conclusao da realidade (nao ideal): “Apesar do seu egoísmo e rapacidade, embora pensem apenas nos seus próprios interesses, embora o único fim que se propõem alcançar a partir de milhares de empregados ao seu serviço seja a gratificação dos seus próprios desejos vãos e insaciáveis, os ricos partilham com os pobres o produto de todos os seus progressos. São guiados por uma mão invisível que os leva a fazer uma distribuição dos bens necessários à vida praticamente equivalente à que teria sido feita se a terra tivesse sido dividida por todos os seus habitantes em partes iguais, e assim, sem o pretenderem ou sem que o saibam, promover o interesse da sociedade, e proporcionar os meios para a multiplicação da espécie. ”
Daí que a afirmação da liberdade do indivíduo frente a um grupo, da sociedade e do Estado leva a que o homem abuse da competição como forma de desenvolver uma crença baseada em que o homem tudo pode,para satisfazer primeiro os seus interesses desde que tivesse vontade,talento e capacidade de ação individual o que por extensao (como externalidade) pode vir a afectar o bem estar do grupo. nao tomando em conta as dinamicas do equilibrio do bem estar social.
[Reply]