Jorge Arbache*

Por que conhecimento?
Para Jorge Arbache, o desempenho de um trabalhador depende do seu conhecimento e experiência, mas, também, do ecossistema em que ele está inserido.

Após décadas de crescimento elevado, o Brasil cresceu menos de 1,2% ao ano em termos per capita entre 1980 e 2013. Ao que parece, caímos na “armadilha da renda média”, fato estilizado da literatura econômica caracterizado pela desaceleração da taxa de crescimento quando o país se aproxima de estágio intermediário de renda. A armadilha estaria associada às dificuldades de se passar de um modelo de crescimento baseado na acumulação de estoque de capital e de trabalho para um modelo em que conhecimento e produtividade ganham maior protagonismo.

Mas particularidades tornam o nosso crescimento especialmente dependente do aumento do conhecimento e da produtividade. Isto porque, primeiro, o país enfrenta uma das mais rápidas transformações demográficas jamais registradas. A população em idade para trabalhar continua aumentando, mas a taxas cada vez menores. E para agravar, a maior parte da população em idade para trabalhar já está engajada no mercado de trabalho. Como consequência, já estamos nos aproximando do limite de uso da força de trabalho.

Segundo, a nossa taxa de investimento, de 17%, é modesta para promover crescimento mais elevado e é improvável que ela venha a aumentar significativamente no futuro previsível; para efeito de comparação, a taxa de investimento dos países emergentes é 27%.

E, terceiro, diferentemente de Coreia, China e outros países que iniciaram mais cedo suas reformas em favor do comércio e do investimento, já não se pode lançar mão de várias políticas e instrumentos de promoção do crescimento por colidirem com a nova governança econômica internacional. Além disso, as novas tecnologias de produção e a rápida mudança no padrão de consumo indicam que escala e custos estão deixando de ser os principais determinantes da competitividade e dos investimentos. A localização dos investimentos em nível global está sendo definida, isto sim, mais por produtividade sistêmica e características específicas dos mercados, e cada vez menos por arbitragem de custos de produção, como salários e incentivos fiscais.

É neste contexto que conhecimento e produtividade, que foram deixados em segundo plano por décadas, terão que ser alçados a componentes centrais da nossa estratégia de crescimento econômico. Afinal, como não podemos contar, ao menos no curto e médio prazos, com elevação significativa da força de trabalho e da taxa de investimento, então teremos que usar melhor e de forma mais eficiente os trabalhadores e o estoque de capital que temos. De outra forma, teremos que produzir bens e serviços de mais alto valor adicionado e elevar a produtividade total dos fatores.

Embora tenhamos feito progresso em conhecimento, a densidade industrial e a produtividade avançaram muito lentamente nas últimas décadas. Ou seja, não conseguimos traduzir aquele progresso em agregação de valor e em competitividade.

Para voltarmos a crescer, teremos que avançar mais rapidamente e de forma mais pragmática nas agendas do conhecimento, incluindo ciência, tecnologia e educação. De fato, indicadores de produção e de absorção de conhecimento científico e rankings globais de inovação mostram situação tímida do país e distanciamento entre a academia e os mercados.

Mas ainda mais preocupante é a agenda da educação, elemento fundamental para determinar a competitividade e a prosperidade, a eficiência produtiva e a capacidade de desenvolvimento tecnológico e de agregação de valor. Nossa educação não apenas deixa a desejar, mas, ainda mais importante, a sua qualidade é muito desigual entre regiões, classes sociais e entre as redes pública e privada de ensino.

O problema da elevada heterogeneidade da educação é que ela não é neutra do ponto de vista coletivo, o que decorre da crescente interdependência produtiva associada às novas tecnologias de produção e de organização da produção. O desempenho de um trabalhador depende, por isto, do seu conhecimento e experiência, mas, também, do ecossistema em que ele está inserido. Não por acaso, as cadeias de valor e a terceirização da produção se tornaram canais de transmissão de benefícios, mas, também, de fragilidades da fragmentação do trabalho.

Como avançar? É preciso reconhecer que o nosso modelo educacional se tornou obsoleto para a era do conhecimento, pois continua ancorado em métodos de aprendizado conteudistas, de conhecimento segmentado e que privilegia a repetição. Ao invés de ensinar a pensar e desenvolver habilidades relevantes para a vida pessoal e profissional, as escolas levam os alunos a digerir grandes quantidades de informações em aulas expositivas sobre assuntos muitas vezes de pouco interesse e utilidade. Como a atividade laboral envolverá atividades cada vez mais colaborativas e organizadas por tarefas, teremos que prover os alunos dos conhecimentos necessários para que possam interagir com as novas tecnologias e que os capacitem a participar ativamente do mundo e do mercado de trabalho que os aguardam.

Também teremos que desenvolver políticas que reduzam as enormes disparidades de capital humano entre pessoas e entre empresas, o que requer definir metas mínimas de conhecimento para os estudantes e para as escolas; distribuir os recursos financeiros e humanos de forma que as escolas e estudantes com pior desempenho tenham mais e melhores recursos; estabelecer currículo em nível nacional, incluindo a definição de material didático básico; criar forças-tarefas para apoiar Estados e municípios a alcançarem as metas; desenvolver políticas de educação profissional de forma que as empresas com maiores deficiências de acesso a capital humano recebam mais atenção; e desenvolver programas de educação profissional adequados à realidade daquelas empresas.

Por fim, teremos que investir mais em ciência e em tecnologia, encorajar o maior engajamento do setor privado nesta agenda e fomentar a disseminação e o acesso ao conhecimento e às novas tecnologias para empresas de todos os portes e setores.

* Jorge Arbache é professor de economia da Universidade de Brasília.

** Este artigo foi extraído do site do Cofecon.

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