A Tarefa do Economista Moderno

Fevereiro 28, 2010

A primeira e, talvez, a mais importante constatação que o economista moderno deve fazer é que, hoje, infelizmente, a ciência econômica ignora o indivíduo e se preocupa, exclusivamente, com a acumulação de capital. É forçoso ressaltar, nesse sentido, que desde que surgiu, a Economia está focada no materialismo, no individualismo e no “salve-se quem puder”.

A socialização de bens e serviços, a luta por uma boa colocação no mercado de trabalho e uma justa e equilibrada distribuição da renda, são objetivos que, em matéria de políticas econômicas, tem passado longe das preocupações governamentais. O discurso contrário tem ficado apenas restrito aos “programas de governo”, ou seja, apenas no papel. Quando “saem” do papel encontram morada tranquila nas gavetas dos “escritórios do poder”. Nesse pormenor, os objetivos econômicos (que em época de campanha política elege muita gente) ficam apenas no plano teórico e são muito bem explicitados, por sinal, apenas, e tão somente, na propaganda política televisiva. É nesse momento que se “vende” aos eleitores um mundo de sonhos que jamais será entregue. Daqui alguns meses veremos isso novamente.

No entanto, o objetivo aqui é outro. Queremos ressaltar a tarefa que cabe ao economista moderno diante de uma sociedade repleta de injustiças sociais. Esse economista, conhecedor teórico dos problemas sociais, que não vive num “mundo onírico”, precisa ter em mente que um mundo melhor para todos somente será possível quando as gritantes disparidades entre o modo de ser/agir dos ricos e o dos pobres for diminuída substancialmente.

Para que isso ocorra, deve o economista moderno pensar, antes, no social, e fazer com que isso esteja sempre acima do econômico. Por que isso? É necessário entender que um rompimento com a tradicional teoria econômica precisa ocupar lugar.

A economia moderna não pode continuar ignorando os aspectos não-monetários. Há muitas coisas interessantes que estão “fora” do padrão monetário-financeiro apregoado pela tradicional teoria econômica.
A economia tradicional dos manuais de Introdução à Economia sempre ignorou o aspecto não-monetário. A moderna economia que desejamos que aconteça precisa equacionar essa pendência. O lado não-monetário envolve aspectos da vida, dos desejos que nem sempre passam pelas portas do crédito financeiro como pré-condição para a obtenção de bens e serviços. É necessário entender que o lado não-monetário tem a ver com a real concepção de Economia propugnada por Alfred Marshall: “a economia cuida das atividades correntes da vida”. Por isso é tão urgente “repensar” a economia, mesmo que isso implique em remar contra a maré.

É necessário, para tanto, uma vez mais combinar reflexão com ação. Basicamente, para o ambiente econômico em questão, é preciso fazer aquilo que frei Leonardo Boff diz com bastante propriedade: “idéias podemos até tê-las, mas o que realmente move o mundo são nossas ações”.

Se todos estiverem imbuídos desse pensamento (ação para mudar), ficará mais fácil então cobrar por ações da política pública nesse sentido. Todo governo, e todo governante, tem o direito de dizer o que fez em sua administração, mas tem também o dever de dizer o que não fez e, por isso, pedir desculpas pelas falhas cometidas ou omissões praticadas. Todo governo, por conseguinte, todo governante, precisa entender que está à serviço da comunidade que o elegeu. Todo governo precisa saber entender a vontade popular e ficar sensível aos anseios do povo, principalmente quando os desejos populares vêem embasados em perspectivas humanísticas, igualitárias, democráticas, com senso de ética e solidariedade. A ciência econômica, por sua vez, precisa, em certo momento, remar contra a maré e abandonar o pragmatismo acadêmico, ressaltando aos estudantes, nos cursos superiores, essa premissa (a da necessidade de mudanças) que aqui me parece básica e fundamental.

Insistindo nesse assunto, é imperioso ressaltar que a ciência econômica precisa se colocar junto à força do povo, buscando promover ações em favor das mudanças de paradigmas. Paradigmas, é imperioso ter isso em voga, em certas ocasiões, são mais fortes que teorias.

Historicamente, toda vez que o povo saiu às ruas, algo aconteceu. Curiosamente, em todas as ocasiões em que houve manifestação popular, o lado econômico encontrava-se abalado; por vezes era uma inflação qualquer que estava fora de controle, por outras era um orçamento público incompatível com os anseios populares, ou ainda foi a falta de pão (ainda que alguém da elite, virando às costas ao povo, como de costume, recomedasse comer broas) ou fora o dinheiro do contribuinte “confiscado”. O fato é o seguinte: sempre um acontecimento econômico se fez (e esteve) presente nas diversas manifestações populares que provocaram mudanças.


Nem tudo se resume a mera questão de mercado

Conquanto, um primeiro passo para qualquer mudança, em especial no ambiente econômico, talvez seja fazer com que os economistas modernos e outros cientistas sociais, se sintonizem no fato de que nem tudo se resume em commodities; portanto, nem tudo deve ser condicionado à mera questão do mercado. Por consequência, nem tudo deve se resumir na pré-condição de mercadoria pronta a ser vendida. Segundo creio, o essencial (a vida em toda sua abrangência) não está a venda! A economia não pode ser resumida a estreita visão de que o mercado (as vendas, por consequência) é o único caminho a ser percorrido. É importante salientar que o mercado não produz progresso, apenas o segue.

Essa visão mercantilista, fortemente reforçada pelos mecanismos capitalistas de mercado, e por políticas que tem destruído a proteção social, leva a um fato crucial: tudo está (é colocado) à venda; assim querem os donos do dinheiro! Dessa forma, preconizam os defensores do capitalismo que querem tudo vender e, para tanto, em tudo colocam seus preços.

De nossa parte, entendemos a economia de outra maneira: vale aduzir que a economia vai além dos preços; vai além dos mecanismo de mercado. A economia não se restringe apenas a variável “consumo”. A economia vai além dos fatores não-monetários, para reiterar-se uma vez mais essa premissa.

Frei Betto, frade dominicano e escritor respeitado no cenário nacional, foi categórico, a esse respeito, em A Mosca Azul, afirmando que “o consumo consome o consumidor”. Em outras palavras, o que Frei Betto diz é que a economia não reconhece direitos, apenas o poder de compra, daí a necessidade da economia tradicional em valorizar o tempo todo o consumidor, não o cidadão. Cabe procurar escapar a essa “provocação econômica”, pois a vida, definitivamente, não se restringe a compra de meras mercadorias.

No entanto, as leis do mercado, centradas exclusivamente na venda de tudo, devora o “muito” daqueles que “pouco” tem. Longe dessa visão puramente mercantil (e mercadológica), cabe ao economista moderno pensar primeiramente nos pressupostos que devem nortear uma sociedade que visa o equilíbrio como objetivo central.

A mudança para isso passa inexoravelmente por entender a economia de outra maneira. Para tanto, os ideais de justiça, liberdade e igualdade precisam, constantemente, virem à baila. Contra a exclusão e a desigualdade sócio-econômica o economista de hoje deve insistentemente se posicionar. Igualdade não combina com exclusão; assim como liberdade não combina com injustiça.

O tipo de sociedade que o economista moderno deve pensar (e procurar fazer) tem que necessariamente passar pela cooperação, em lugar da competição. Esta última, até mesmo por ser quase sempre praticada de maneira desigual (concorrência desleal e imperfeita no jargão econômico), privilegiando apenas os mais abastados, apresenta evidências, a todo instante, e mais que suficientes, que serve apenas para dividir e segregar. Quem ganha na competição se dá bem. The winner takes it all, (O vencedor leva tudo!) diz o título de uma canção do grupo musical sueco Abba. O perdedor? Ah, esse será um eterno excluído! A ele dá-se as batatas!

Alguém lendo isso poderá recorrer ao velho axioma: quem não é competente não se estabelece. Logo, é justo que o vencedor leve tudo. Acontece que, antes de olhar nessa direção, é necessário saber em quais condições estão se dando essa tal competição.

Muitos são sabedores que a competição privilegia àqueles com mais acesso às informações. Certamente, esse gozam de privilégios financeiros que a imensa maioria (os despossuídos) nem sonha chegar perto. Logo, por possuírem vantagens em relação aos que tem enormes dificuldades de se manter em pé, quem é que ganhará esse jogo competitivo que mais parece um jogo entre gato e rato? A pergunta que fica então é a seguinte: é justo, nesse sentido, que o vencedor deva levar tudo?

Essa é uma das razões da sociedade ser extremamente dividida. A primeira premissa dessa separação se dá pela ótica das posses; pela extrema e elevada condição financeira de uns que facilita, na ponta final, a posição social que cada um desses irá ocupar em relação aos que nada possuem. A continuar tal “separação”, dada pela questão financeira, jamais se chegará a condição sonhada de ter-se um amanhã melhor para todos. Somente somando forças, e não dividindo, se poderá, quiçá, alcançar uma sociedade mais justa e menos desigual. É sabido que a força coletiva faz o progresso acontecer. Com o progresso, a chance dos que nada tem passa a ser considerável.

A cooperação, nesse sentido, pode ser à luz que falta àqueles que hoje vivem completamente à margem dos benefícios, tanto econômicos, quanto sociais, que uma sociedade equilibrada e justa é capaz de oferecer.
É nessa direção que o economista moderno deve direcionar esforços. E, antes de qualquer outra coisa, é nessa linha de conduta que o economista moderno deve remar contra a maré da sabedoria econômica tradicional.

As causas e consequências da pobreza em que vive 1/3 dos brasileiros, para tomar-se aqui como paradigma o Brasil, deve ser ensinada pelas ciências econômicas como sendo a mais abjeta situação, comparável a ignomínia da escravidão que marcou esse país por séculos. Essa deve ser a primeira lição ensinada no primeiro dia de aula no primeiro ano do curso de graduação em Ciências Econômicas. E essa mesma “preocupação” deve continuar nos cursos de pós-graduação na área de Economia e de outras ciências sociais. Essa preocupação com o social precisa nortear, definitivamente, as ações de nossos economistas e cientistas sociais.

Há uma passagem ilustrativa de Ladislau Dowbor em O Mosaico Partido, que abrilhanta essa assertiva: “Quem não entende os processos econômicos, acaba não entendendo coisas tão elementares como porque somos capazes de façanhas fenomenais como as viagens no espaço, mas somos incapazes de reduzir a tragédia de 11 milhões de crianças que morrem anualmente de fome e outras causas absurdas, ou ainda de conter o ritmo de destruição ambiental do planeta. Já estamos tentando brincar de criadores clonando a vida, mas não somos capazes de resolver o problema do carrapato”.

A pobreza, a fome, a miséria e todo e qualquer tipo de exclusão social devem ser os temas de maior interesse do economista moderno; principalmente em sociedades com elevados índices de desigualdades. É simplesmente inadmissível aceitar que no mundo de hoje haja gente passando fome em qualquer parte do planeta, visto que os recursos para acabar com a fome sobram – são até mesmo desperdiçados.
Uma questão de ética

Esses temas (fome, miséria), abarcados, pois, na definição ampla de exclusão social, devem, antes, ser encarados como temas concernentes aos Direitos Humanos; portanto, não apenas restrito a uma área específica do conhecimento, até porque a existência da fome, em especial, é uma questão de ética, e não apenas de “desequilíbrio” econômico ou uma mera questão de ajustes produtivos. Isso não quer dizer que o economista não deva se debruçar sobre essa questão como enfatizado anteriormente.

Nesse pormenor, o economista precisa se engajar em outras áreas do conhecimento para junto a outros “pensadores” encontrarem, coletivamente, as alternativas para a necessária mudança. Uma simbiose com a Sociologia, com as Ciências Políticas, a Administração, o Direito ou mesmo a Psicologia precisa aflorar. Sozinha, a Ciência Econômica não conseguirá dar boas respostas a tais anomalias, embora seja um instrumental riquíssimo de análise dos fatos e acontecimentos que correm atualmente.

Propor alternativas para erradicar esses males deve ser a tarefa a ser empreendida por todos os profissionais que chegam a todo momento ao mercado de trabalho, independente da área de atuação.

A Economia, em especial, precisa resgatar seu DNA social, afinal, a ciência econômica “nasceu” também para isso: para dar uma resposta positiva aos problemas sociais que tanto aflinge o pensamento do homem moderno. Certamente, os problemas da fome e da pobreza que marcam a ferro e fogo a desigualdade social no Brasil, precisam ser pensados a todo instante por aqueles que tem a rara oportunidade de dirigir a vida econômica de um país.

Definitivamente, a meu ver, o que deve ser entendido é que, por meio das conhecidas políticas econômicas, abre-se grande chance de mudar a vida de milhões de pessoas. Mudar para melhor a vida de milhões de pessoas: eis a grande tarefa que cabe ao economista moderno.

Prof. Marcus Eduardo de Oliveira
Economista, mestre pela USP e professor do UNIFIEO (Depto. de Comércio Exterior) e da FAC-FITO (Depto. de Economia). Autor dos livros “Conversando sobre Economia” (Ed. Alínea) e “Provocações Econômicas” (no prelo).

Economia brasileira é destaque na América Latina

Fevereiro 23, 2010

É grande o otimismo em relação à recuperação da economia latino-americana frente à crise internacional, de acordo com a Sondagem Econômica da América Latina, divulgada na segunda-feira (22) pela Fundação Getulio Vargas. O destaque na região, segundo os especialistas consultados, é o Brasil, que apresentou o melhor Índice de Clima Econômico (ICE), de 7,8 pontos, para uma média regional de 5,6 pontos, numa escala de um a nove, entre outubro do ano passado e janeiro deste ano.

O superintendente de Ciclos Econômicos da FGV, Aloísio Campelo, afirmou que o otimismo é grande em relação aos próximos seis meses. “Mas a gente nota que a avaliação sobre a situação atual ainda é desfavorável na maior parte dos países.”

O economista da FGV observou que os países mais dependentes dos Estados Unidos, como México, República Dominicana e Costa Rica, estão mais atrás na recuperação. Na Venezuela, o clima é de recessão. Ele disse que há um desânimo do investidor privado, e o petróleo — principal produto do país — tem recuperação lenta, porque a exportação depende da retomada do mercado internacional, “que está indo devagarzinho”.

Na América do Sul, os países que já tinham uma maior solidez no período pré-crise — Brasil, Chile, Peru e Uruguai — tiveram recuperação mais rápida. “O Brasil saiu muito bem, saiu muito rápido realmente e o clima econômico já está bom”. Campelo afirmou que no caso brasileiro a própria avaliação sobre a situação atual é boa.

“A gente já passou da fase de recuperação do consumo e está entrando na fase de realização de investimento. A maioria dos especialistas diz que os investimentos vão aumentar. Os outros países ainda não chegaram a essa fase, com exceção, talvez, do Chile, que estaria também pensando em expansão [dos investimentos]”, comentou.

Segundo Campelo, o cenário favorável traçado para o Brasil seria um chamariz para o investimento. Ele salientou, entretanto, que isso depende da disponibilidade, ou seja, da liquidez internacional. “O que precisa é manter os fundamentos macroeconômicos, trazer de volta o equilíbrio fiscal, fazer um esforço para voltar a ter superávits primários mais perto de 4% e não de 2%, que foi o caso de 2009. E, na área de inflação, manter a seriedade.”

Isso significa que, se houver um descasamento entre oferta e procura este ano por conta de uma aceleração de demanda interna que a indústria não possa acompanhar, o Banco Central deverá agir e manter uma sintonia fina para que a inflação permaneça próximo da meta, recomendou.

O cenário, frisou Campelo, é virtuoso, “a não ser que a gente comece a tomar medidas equivocadas doravante”. Com o cenário positivo para investimentos, a expectativa é de geração de empregos no Brasil. Ele informou que, por enquanto, apenas a indústria não retomou o patamar de empregos pré-crise. Já os setores de serviços e comércio apresentam expansão nessa área. “E a tendência é continuar com aumento da oferta de empregos nos próximos meses.”

A Sondagem Econômica da América Latina de janeiro de 2010 consultou 139 especialistas de 17 países e foi realizada pela FGV em parceria com o Institute for Economic Research da Alemanha.

Alana Gandra / Agência Brasil

Economia com face mais humana

Fevereiro 7, 2010

A Economia (enquanto ciência e atividade produtiva) somente será viável se for humana, para o homem e pelo homem. Essa frase, interessante pela sua abrangência social, é atribuída ao papa João Paulo II (Karol Voitjila, 1920-2005). O fato é que uma economia com face mais humana, preocupada com a questão social, tem sido constantemente sufocada em nome de modelos econômicos distorcidos que são dirigidos em favor de ganhos na escala especulativa.

Modelos econômicos, em geral, aqui e acolá, têm sido desenhados para atingir objetivos no curto prazo, quase sempre apontando para a necessidade de fazer a produção crescer. Acontece que buscar maior produção não assegura, por conseqüência, que todos participação dela ou terão sua fatia disponível para abocanhar o bolo do crescimento econômico. Isso, por si só, já nos permite afirmar que crescimento não rima com desenvolvimento; e que, por definição mais ampla, significa ainda dizer que crescer não permite se desenvolver como mera contrapartida. Desenvolvimento passa por uma abordagem bem mais ampla envolvendo, no bojo, melhoria substancial na vida dos mais necessitados.

Dessa constatação parte uma provocação e um chamado a quem se interessa por construir uma economia mais humana e menos tecnicista em seu sentido capitalista-espoliador. A provocação é simples: precisamos enveredar esforços no sentido de lançar-se um olhar renovador sobre a economia para, a partir disso, entender e propor alternativas a esse mundo-econômico repleto de injustiças e distorções. O objetivo disso tudo é apenas um: criar modelos econômicos que permitam melhorar a vida de milhões de pessoas. Esse é, certamente, um dos grandes desafios que o economista moderno desejoso de ajudar a construir um mundo onde todos ganham precisará enfrentar. Para tanto, uma ruptura com a tradicional teoria econômica precisa acontecer. Nesse sentido, o eixo central da economia – base da economia tradicional - não pode ser estritamente o mercado e, o objeto, a mercadoria; mas, antes, o indivíduo e suas necessidades básicas e peculiares. Que a Ciência Econômica “carregada” por todos aqueles que vislumbrem a necessidade de mudar os modelos econômicos para a construção de um mundo melhor seja posta no caminho de se construir, de forma sólida, a igualdade entre os homens.

As diversas crises que a economia e a sociedade, por não raras vezes, são (e tem sido) acometidas servem para acender a chama da renovação e da urgente mudança, até mesmo porque é inaceitável aceitar pacificamente a imposição de certas “ordens” ditadas pelos abonados mandantes da ordem estabelecida.

Amartya Sen, um dos economistas que mais tem trabalhado a questão do social em torno da análise econômica, a esse respeito, certa vez disse que: “É difícil entender como uma ordem mundial compassiva pode incluir tanta gente atormentada pela miséria extrema, pela fome persistente e por vidas miseráveis e sem esperança, e por que a cada ano milhões de crianças inocentes têm de morrer por falta de alimentos, assistência médica ou social”.

Talvez seja por isso que certas situações causam tanto incômodo. Vejamos, por exemplo, que os dentes afiados da financeirização internacional que movimentam, em termos especulativos, 2 trilhões de dólares por dia, nos dilaceram a carótida, nos jogam de bruços ao chão, nos tornam ínfimos e raquíticos perante a força do grande capital. Disso resulta a constatação que é simplesmente insano, patológico mesmo, “descobrir” essa verdade sabendo ser também verdadeiro que, a cada ano, milhões de pessoas – pobres, miseráveis e indigentes – padecem pela dor física da fome.

Nos dias que correm nesse século XXI que vem carregando 2.000 anos nas costas a contar do nascimento de Cristo, todas as noites, 900 milhões de pessoas – crianças, jovens, idosos, homens e mulheres comuns -, vão dormir de barriga vazia; não pela opção estética do corpo magro e perfeito, mas por terem as bocas esfaimadas; porque os famigerados sistemas econômicos que “manipulam” mercados ao doce sabor do lucro e que pelos mercados são “manipulados” em favor dos rápidos retornos financeiros assim determinam tal ordem ignominiosa.

Isso nos leva a outra reflexão: Em se tratando de economia, não tenhamos dúvidas: as ações econômicas possuem diversas dimensões e impactos múltiplos que afetam substancialmente à qualidade de vida das pessoas; às vezes de maneira positiva ou negativa. Em outras palavras, em economia somos todos responsáveis pelo que acontece. O lamentável fato de presenciarmos gente morrendo de fome num tempo em que o avanço tecnológico é incomensurável, não pode ser moralmente justificável. Quase todos conhecem as maneiras (o modo de fazer) e sabem que os recursos para tirar essa massa incontável de pessoas da indigência estão disponíveis. Nesse pormenor, bastaria, para tanto, menos de 0,5% de um PIB mundial que está batendo na casa dos 65 trilhões de dólares anuais para acabar, de uma vez por todas, com essa sandice.

Nesse sentido, para finalizar vale resgatar aqui as sábias palavras de santo Agostinho quando diz com clareza que “a esperança tem duas filhas lindas: a raiva e a coragem. Raiva do estado das coisas e coragem para mudá-las”. Que tenhamos a coragem para mudar esse cenário de tristeza que são cometidos aqueles que passam fome, em geral determinadas pelas ditas “ordens e modelos econômicos”.

Por Marcus Eduardo de Oliveira

Economista, mestre pela USP e professor universitário. Especialista em Política Internacional pela Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo (FESP). Autor dos livros “Conversando sobre Economia” (Ed. Alínea) e “Provocações Econômicas” (no prelo).

Banco Central anuncia a segunda família de cédulas do Real

Fevereiro 3, 2010

O Conselho Monetário Nacional aprovou nesta quarta-feira (03), em reunião extraordinária, o lançamento da segunda família de cédulas do Real. A nova séria de notas entrará em circulação gradualmente até 2012, mas as notas em circulação continuarão a valer até a substituição integral. Lançada em julho de 1994, a série de cédulas atual permaneceu praticamente inalterada por 15 anos.

Um novo design para o dinheiro brasileiro

O projeto das novas cédulas brasileiras vem sendo desenvolvido desde 2003 pelo Banco Central em conjunto com a Casa da Moeda do Brasil (CMB), responsável pela produção do dinheiro. As novas cédulas do Real atenderão a uma demanda dos deficientes visuais, que até então enfrentavam dificuldade em reconhecer os valores das notas. Com tamanhos diferenciados e marcas táteis em relevo aprimoradas em relação às atuais, a nova família de cédulas facilitará a vida dessa importante parcela da população. Dotadas de recursos gráficos mais sofisticados, as notas ficarão mais protegidas contra as falsificações.

Nova cédula de R$ 100 apresentada nesta quarta-feira (27). Foto: Divulgação Banco Central.

Nova cédula de R$ 100 apresentada nesta quarta-feira (27). Foto: Divulgação Banco Central.

A temática da atual família – efígie da República nos anversos e animais da fauna brasileira nos reversos – será mantida, porém os elementos gráficos foram redesenhados, de forma a agregar segurança e facilitar a verificação da autenticidade pela população. A nova família vai manter a diferenciação por cores predominantes, aspecto que facilita a rápida identificação dos valores nas transações cotidianas, inclusive por pessoas com visão subnormal.

As primeiras cédulas a serem lançadas serão as de R$ 100 e de R$ 50, que demandam maior segurança contra falsificações por serem os valores mais elevados em circulação. A substituição do meio circulante será feita aos poucos, à medida que as cédulas atualmente em circulação forem retiradas em decorrência do desgaste natural. No primeiro semestre de 2011, serão lançadas mais duas denominações – R$ 20 e R$ 10 –, devendo toda a nova família estar em circulação em um período de dois anos.

Com informações do Banco Central.

Economia chinesa cresce 8,7% em 2009

Janeiro 21, 2010

A economia da China cresceu 8,7% em 2009. O índice ficou acima da meta oficial que era de 8%. No entanto, o crescimento está abaixo do registrado em 2008, de 9,6%. De acordo com o Birô Nacional de Estatísticas do país, o valor acumulado do Produto Interno Bruto (PIB) entre janeiro e dezembro do ano passado alcançou US$ 4,91 trilhões. O número faz com que a China fique muito próxima do Japão, podendo se transformar na segunda economia mundial.

Com a crise financeira internacional do final de 2008 e início de 2009, a economia chinesa foi fortemente afetada. Mas os estímulos do governo garantiram as fortes taxas de crescimento econômico.

Com o resultado de 2009, o PIB chinês se iguala ao PIB do Japão de 2008. O Japão deve anunciar os dados referentes à sua economia no ano passado em fevereiro. Espera-se uma contração de até 6% na economia japonesa. Apesar dos dados, o chefe da agência nacional de estatísticas chinesa, Ma Jiantang, relativizou a comparação, reconhecendo que a China é um país em desenvolvimento e possui ainda 150 milhões de pessoas vivendo abaixo da linha de pobreza.

Com informações do G1.

Pesquisa do IBGE confirma que economia continua concentrada em poucos municípios

Dezembro 16, 2009

O panorama de concentração da economia em poucos municípios permaneceu inalterado entre 1999 e 2007. Segundo a coordenadora do levantamento Produto Interno Bruto (PIB) dos Municípios, Sheila Zani, essa é a principal conclusão do estudo, divulgado hoje (16) pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).

O levantamento traz informações sobre a geração de riqueza nas 5.564 cidades do país. “Vemos um país com economia concentrada em poucos municípios, principalmente nas capitais. Esse é um retrato estável ao longo desses anos”, destacou Sheila.

Ela ressaltou, no entanto, que houve crescimento significativo em relação ao PIB de algumas cidades que não são as capitais de seus estados. Entre elas, figuram Paranaguá, no Paraná, impulsionada por incentivos fiscais a empresas importadoras; além de Louveira e Jundiaí. em São Paulo, onde a atividade industrial está em “franca expansão desde 2005”.

A estatística do IBGE destacou ainda que, em 2007, a queda do preço do barril de petróleo em reais beneficiou municípios ligados ao refino, em detrimento daqueles cuja economia era ligada à extração. No Rio de Janeiro, por exemplo, diferentemente do que se observou ao longo de toda a série desde 1999, quem mais ganhou participação foi Duque de Caxias, que abriga uma importante refinaria. A cidade foi também líder de crescimento do valor adicionado da indústria no ano passado, com ganho de 0,4% de participação, num ranking que incluiu os 35 municípios com pelo menos 0,5% do PIB do setor.

“O ano de 2007 não foi bom para extração de petróleo, o refino é que estava com preços melhores. Então não foram os municípios do norte fluminense que puxaram a participação, mas aqueles ligados ao refino, como Duque de Caxias. De 1999 a 2006, Campos dos Goytacazes, com sua vocação na exploração de petróleo, é o que mais ganha participação no estado, mas no último ano ele foi o que mais perdeu participação”, concluiu.

Agência Brasil / Thais Leitão
Edição: Nádia Franco

Morreu prêmio Nobel de Economia Paul Samuelson

Dezembro 13, 2009

Paul Samuelson, prêmio Nobel da Economia em 1970 e autor dos textos econômicos mais vendidos de sempre, morreu ontem, em Belmont, Massachusetts, aos 94 anos. A sua morte foi anunciada pelo Massachusetts Institute of Tecnology (MIT), a famosa escola norte americana onde passou a maior parte da sua vida profissional.

Samuelson foi uma figura dominante no panorama econômico dos Estados Unidos, desde o final dos anos 30 e ao longo da década de 60 e a sua influência no ensino da economia é difícil de quantificar.

O seu livro “Economia” apresentou a gerações e gerações de estudantes universitários o tema, enquanto o “Fundamentos da Análise Econômica” transformou a economia, de um mero exercício literário para a disciplina científica e matemática que hoje é.

Economia brasileira cresce 1,3% no terceiro trimestre

Dezembro 10, 2009

A economia brasileira cresceu 1,3% no terceiro trimestre do ano na comparação com o trimestre anterior. O Produto Interno Bruto (PIB), soma de todas as riquezas produzidas no país, chegou a R$ 797 bilhões no período, segundo dados divulgados nesta quinta-feira (10) pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).

O resultado ficou abaixo da estimativa feita na quarta-feira (9) pelo ministro da Fazenda, Guido Mantega, que afirmou que a expansão no período seria de 2%.

A maior elevação foi registrada no setor industrial, cuja alta na produção chegou a 2,9%, seguida pelo setor de serviços, que apresentou expansão de 1,6%. Já a atividade agropecuária teve queda de 2,5%.

Em relação ao mesmo período de 2008, o PIB teve queda de 1,2%. Nessa comparação, os serviços registraram o melhor desempenho, com alta de 2,1%, enquanto a agropecuária teve queda de 9,0% e a indústria, de 6,9%.

Na mesma comparação, o consumo das famílias aumentou 3,9%, o 24º período de crescimento consecutivo. Um dos fatores que contribuíram para o resultado foi o comportamento da massa salarial real, que cresceu 2,5% no terceiro trimestre de 2009, com aumento da ocupação e do rendimento médio do trabalho.

A despesa de consumo da administração pública variou 1,6% na comparação com o terceiro trimestre de 2008 e os investimentos (formação bruta de capital fixo) caíram 12,5%.

No acumulado do ano, a soma das riquezas produzidas no país registrou queda de 1,7% em relação a igual período do ano passado.

O IBGE também divulgou dados revisados relativos ao segundo trimestre do ano. Na nova leitura, a economia teve, naquele período, expansão de 1,1% em relação aos três meses anteriores (inicialmente, a elevação apontada foi de 1,9%), depois de ter caído 0,9% de janeiro a março (antes, o dado apresentado foi de queda de 0,8%).

Em relação ao segundo trimestre de 2008, a nova leitura revela retração de 1,6%, mais intensa do que a de 1,2% calculada anteriormente.

Essa revisão de dados é realizada pelo IBGE após verificar informações de levantamentos posteriores, também feitos pelo instituto.

Agência Brasil / Thais Leitão
Edição: Juliana Andrade

Economia cresceu 6,1% em 2007 na comparação com o ano anterior

Novembro 4, 2009

O Produto Interno Bruto (PIB), a soma de bens e serviços produzidos no país, cresceu 6,1% em 2007 em relação a 2006, conforme divulgou o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). A revisão dos dados foi apresentada nesta quarta-feira (4).

Em valores correntes, a expansão foi de R$ 2,661 trilhões e o PIB per capita (divisão do PIB pela população) ficou em R$ 14,183. O resultado foi impulsionado pela expansão de 6,1% do setor de Serviços, 5,3% da Indústria e 4,8% da Agropecuária.

De 2006 para 2007, os impostos tiveram alta de 6,2%, superando o Valor Adicionado Bruto (5,8%). Os maiores aumentos foram o do o Imposto sobre as Importações (24,2%) e o do Imposto sobre o Valor Adicionado (7,9%).

Agência Brasil / Isabela Vieira
Edição: Tereza Barbosa

Economia tem a ver com felicidade

Novembro 2, 2009

O lado consumista do ser humano recomenda que a felicidade repouse na aquisição de produtos e serviços diversos, e, de preferência, em grandes quantidades. Somente por esse pormenor já bastaria para analisarmos a economia pelos seus dois lados mais influentes: a oferta e a demanda. Até mesmo porque tudo parece ser uma questão de oferta e demanda; não à toa esse é um dos principais conceitos da economia.

Evidentemente, junto à oferta e demanda, deve-se levar em conta à variável “preço”; condição essa essencial para deslocar (para cima ou para baixo) a quantidade procurada (demanda) em razão da quantidade fornecida (oferta); isso tudo, é claro, num lugar específico chamado “mercado”.

Utilizando a variável “preço” queremos, por sua vez, apenas para sintetizar essa discussão e não torná-la enfadonha, fazer um link com a variável “renda”, que aponta, essa sim, para a real possibilidade de compra ou recusa dos diversos bens e serviços dispostos nos mercados.

Portanto, pensando friamente dessa forma, ou seja, (no ato de consumir), quanto mais se consumir, mais a felicidade aumenta; ainda que seja não apenas sobre um consumo necessário.

Esse consumo excessivo, que vai além das necessidades básicas, encontra nas ciências econômicas amparo no conceito “conspícuo”, ou seja, aquele consumo supérfluo, típico do consumidor voraz pronto para alimentar com seu consumo sem limites a oferta. Ao economista Thorstein Veblen devemos esse conceito desde 1899.

Portanto, se a felicidade repousa no ato de consumir, como querem alguns, basta consumir cada vez mais para ser muito feliz. Afinal, consome-se de tudo (até mesmo coisas sem sentido) e, em geral, em quantidades que agradam muito aos ofertantes. Desse modo, como a sociedade, em geral, é muito consumista, pressupõe-se que há muita gente feliz. Portanto, nesse pormenor, a felicidade é igual ao consumo e o consumo leva a felicidade. Certo ou errado?

A diversificação da oferta – o poder da demanda

Tamanha é a diversificação da oferta – cuja demanda parece sempre disposta a responder aos estímulos -, que os economistas, além de calcularem a sensibilidade (elasticidade) da demanda e da oferta em relação aos preços, chegam até mesmo a definir certo tipo de mercadoria chamando-a de “mercadoria não rival”. Essa é aquela mercadoria cujo consumo feito por uma pessoa não impede que outra também a consuma, como um passeio pelo parque público nas manhãs de domingo, a leitura em público de um poema, assistir ao filme do momento no cinema lotado ou mesmo no DVD junto aos familiares.

Pela pura lógica do consumo, o poder parece então residir, de fato, nas mãos dos consumidores. John K. Galbraith, a esse respeito em The Economics of Innocent Fraud: Truth For Our Time nos diz que “O poder de última instância é o do consumidor. A escolha do consumidor dá forma à curva de demanda. (…) A curva de demanda confere autoridade ao consumidor”.

É dessa forma então que a teoria econômica foi esboçada desde seus primeiros passos. A prática do consumo é o determinante do vigor econômico. E vigor econômico é o que todos queremos, não é mesmo?
A economista Diane Coyle em Sexo, Drogas e Economia (leitura imperdível para quem gosta de ler economia fora do padrão acadêmico dos manuais) corrobora com essa afirmação apontando que “o vigor econômico tem a ver com consumo, não com produção”. Nós acrescentamos que o consumo tem a ver com trabalho, que tem a ver com renda…e, quanto mais renda, mais consumo, mais vigor econômico. Entendemos definitivamente que a variável “consumo” é a responsável por puxar qualquer economia para cima. Aqueles que querem que a felicidade esteja relacionada ao consumo certamente acrescentariam que, dessa forma, pela estrita lógica consumista, alargar-se-á a oportunidade de alcançar a felicidade.

Essa parece ser a estrutura econômica balizada pelo consumo. Enganam-se aqueles que pensam que a base do capitalismo é a produção. A base (fundamento) é o consumo. Alguém já disse que acabar com os consumidores é matar a galinha dos ovos de ouro do capitalismo.

Retornando à idéia de felicidade há algo ainda que precisa ser inquirido.

Será mesmo que a felicidade é apenas consumir, consumir e consumir? Será que a felicidade pode mesmo ser comprada qual fosse uma mercadoria disposta em alguma prateleira?

Maximização da utilidade esperada

Embora o dinheiro não compre felicidade, é um pré-requisito para isso. Assim como o trabalho é o pré-requisito para o dinheiro. Em geral, os economistas querem que todos sejam felizes, e não apenas ricos. Até mesmo porque os economistas caracterizam o comportamento das pessoas quando fazem escolhas com base na maximização da utilidade esperada (espera-se escolher a opção que lhe proporciona a maior utilidade média).

Para entramos nessa discussão, convém, antes, lembrarmos que a economia é construída em cima da estrutura da utilidade, como bem aponta Diane Coyle na obra acima citada.
Utilidade (utilitarismo) para os economistas só faz sentido se pensada em forma de benefício, de bem-estar.

A base da Teoria do Consumidor passa pelo conceito de utilitarismo. Esse pode ser definido como o bem que se identifica com o útil.

Os utilitaristas – Jeremy Bentham e John Stuart Mill - são claros a esse respeito: “a felicidade está na aquisição daquilo que nos é útil”.

O útil, grosso modo, leva à satisfação, leva ao prazer, leva ao bem-estar. Essa é, em essência, o objetivo do economista: proporcionar oportunidades e escolhas disponíveis a todos no dia a dia, auxiliando o maior número de pessoas na busca de algo fundamental: o bem-estar.

Bem-estar, então, por sua vez, se liga de forma íntima à felicidade. Pelo menos é o que diz a ciência econômica quando recomenda a seus fiéis consumidores que maximizem a utilidade esperada, ou seja, que no ato de tomada de decisões (não somente no ato de consumir) cada indivíduo alcance o maior nível possível de utilidade.

Conquanto, nem sempre essa utilidade está relacionada apenas ao ato de consumir, como parece recomendar a lógica mercadológica. Posso perfeitamente obter utilidade ao encontrar alguém, ao falar com alguém, ao pensar em algo prazeroso, ao ler um poema agradável, ao respirar um ar puro, ao contemplar uma obra de arte ou um monumento público. Estou assim consumindo algo? Sem dúvida; no entanto, não estou tendo nenhum dispêndio para isso. Para desespero do capitalismo, nem sempre um consumo vem seguido de gastos.

Resultados sociais

Se a economia é uma ciência social, nada mais justo que seus resultados apresentem um significado social – e não apenas econômico, como quer a lógica econômico-consumista-mercadológica.

No entanto, esse lado social imerso nessa lógica econômica tem ficado à margem das decisões que priorizam, apenas, e tão somente, o lado econômico. O lado social sempre foi – e continua a ser – relegado a quinto plano.

Pelo lado econômico, o que tem validade são os ganhos financeiros, não os prazeres-utilitários que não envolvem somas de dinheiro. O que interessa, para o lado econômico, é o predomínio econômico-financeiro, não a abrangência social. Essa é a razão da existência de algumas discrepâncias que, em nosso entendimento, beiram a patologia.

O Human Development Report 1998 (p.37) atestava que “o mundo tem recursos mais do que suficientes para acelerar o desenvolvimento humano para todos e para erradicar as piores formas de pobreza do planeta”. Para tanto, a fim de universalizarem-se os serviços sociais básicos bastaria US$ 40 bilhões. Isso significa míseros 0,1% da renda mundial. Isso seria, portanto, o lado social sendo aflorado. Mas não é o que interessa aos grandes grupos que detém e dominam a cena econômica. Passados mais de dez anos do referido Relatório, nada mudou. A lógica econômica continua com a mesma recomendação: vender, vender, vender e, de preferência, excluir o lado social nessa vendas.

Nessa linha de análise as distorções continuam grotescas. Para assegurar educação básica para todos precisaríamos de US$ 6 bilhões, mas não se consegue esse valor. No entanto, os gastos em cosméticos apenas nos EUA são de US$ 8 bilhões ao ano, em média. Para assegurar água e saneamento para todos seriam necessários US$ 9 bilhões. Mas, não há “recursos” para isso. Preferem-se gastar US$ 11 bilhões em sorvetes na Europa. Saúde e nutrição básica para todos exigem cifras de US$ 13 bilhões suplementares por ano. Mas não há “dinheiro” para isso. Como o que predomina é a lógica do consumo sem sentido, a Europa e os EUA juntos gastam, ao ano, US$ 17 bilhões em ração para animais de estimação. Fora isso, apenas no Japão, os executivos se divertem em entretenimentos que “alimentam os desejos da carne” torrando por ano US$ 35 bilhões. Na Europa se gasta US$ 50 bilhões em cigarros e em bebidas alcoólicas todos os anos (em média) e o mundo literalmente “queima” US$ 400 bilhões em narcóticos.

Definitivamente, “o mundo não é uma mercadoria” como nos ensina o professor Henrique Rattner e, “nem tudo está à venda” (everything for sale) como alerta Robert Kuttner, para outra situação de desespero do sistema capitalista.

Logo, a felicidade, nesse sentido, não pode (e nem deve) repousar suavemente sobre o “nobre” ato do consumo exagerado que exige, por conseqüência, elevados dispêndios.
Há algo muito mais interessante que leva à felicidade, ainda que a publicidade nos bombardeie diariamente recomendando o consumo a qualquer custo.

E a economia tem tudo a ver com isso.

Basta atentarmos para o seguinte: onde a economia estará no futuro depende daquilo que milhões de nós faremos nesse meio tempo até lá. Cabe a nós decidirmos o futuro. O futuro nos pertence e a felicidade, certamente, há de nos esperar na próxima esquina abraçada a maximização da utilidade esperada.

Marcus Eduardo de Oliveira
Economista, mestre pela USP e professor universitário. Especialista em Política Internacional pela Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo (FESP)

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