Hugo Meza Pinto é economista e doutor pela Universidade de São Paulo (USP) no Programa de Integração da América Latina (Prolam). Atualmente é coordenador das Faculdades Integradas Santa Cruz, de Curitiba. Já contribuiu com O Economista nos artigos “Endividamento e consumo”, “Por que todo mundo fala sobre a importância da educação e poucos fazem alguma coisa para melhorá-la?” e “Recado aos futuros jovens economistas e aos que desejam estudar economia”.

Hugo tem no currículo trabalhos que abordam a economia da América Latina. O Economista aproveitou para entrevistá-lo e saber mais sobre os rumos do desenvolvimento econômico dessa região, quais são as principais dificuldades dos países latino-americanos apontadas pelo economista e ainda de que forma o Brasil se insere neste contexto.

"Formar colônias que tivessem a função de servir de fornecedoras de produtos primários para suas monarquias foi o principal objetivo da colonização da América Latina", afirma.

O Economista – Tendo em vista sua experiência com estudos voltados à América Latina, acha possível destacar traços comuns nas economias desses países? Quais seriam eles?

Do ponto de vista histórico, todos os países da América Latina foram conquistados por monarquias europeias que tiveram a única intenção de exploração e dominação. Formar colônias que tivessem a função de servir de fornecedoras de produtos primários para suas monarquias foi o principal objetivo. Não houve, em momento algum, a intenção de formar nações que um dia pudessem se tornar países independentes. Talvez esse seja o principal denominador comum das economias latino-americanas.

Séculos depois das independências portuguesas e espanholas, especificamente no século XX, observou-se uma tentativa desigual de formação de estruturas econômicas nos países. De todas essas tentativas, a estratégia brasileira de substituição de importações, se tornou a mais bem sucedida em relação às mesmas estratégias instauradas nos demais países. O Brasil tem uma certa vantagem na sua estrutura industrial em relação aos outros países latino-americanos. Isso faz com que exista uma heterogeneidade produtiva e social nos países latino-americanos. Essas assimetrias, do meu ponto de vista, não favorecem para estabelecer um processo bem sucedido de integração econômica. Embora, cada vez mais haja esforços por tentar uma integração, as barreiras social, cultural e de língua ainda dividem o Brasil dos países de fala espanhola na América Latina.

O Economista – Na sua opinião, a classificação do setor primário (agricultura, pesca, pecuária, etc.) como uma das principais atividades econômicas dos países latino-americanos pode ser vista como um entrave para a consolidação de uma economia mais forte?

A eterna visão de países fornecedores de matéria-prima, ainda nos persegue. O desafio de inserir valor agregado em nossos produtos é a principal meta para o desenvolvimento. As assimetrias produtivas fazem dos países da Latino-América produtores desiguais de produtos sem muito valor agregado (commodities). A discussão instaurada pela Comissão Econômica para a América Latina (CEPAL) em 1950 sobre a deterioração dos termos de troca ainda é vigente. Essa relação se dá com maior ênfase entre países menos desenvolvidos da região como Bolívia, Equador, etc. A lógica demonstra uma certa desvantagem da região com o resto do mundo.

Por outro lado, nesses últimos anos, temos sido favorecidos pelo crescimento de outros países emergentes como a China que demandou, de forma intensiva, recursos primários (aço, minérios, alimentos, etc.). Até a possibilidade de escassez de alimentos que o mundo pode ter nos favorecido porque a nossa região tem sido apontada como a principal fornecedora desse tipo de produto.

O grande desafio dos países da região é sair dessa relação desvantajosa de exportar commodities e importar produtos de alto valor agregado (nesse contexto, a discussão cepalina, ainda se perpetua). O Brasil tem mostrado o caminho.

O Economista – Nesse sentido, que medidas poderiam ser tomadas para alavancar o desenvolvimento econômico da América Latina?

Diminuir significativamente as assimetrias econômicas na região é o principal desafio. Infelizmente, alguns países têm se dedicado a incentivar políticas populistas que só tem o objetivo de perpetuação do poder dos seus líderes. Sob o embuste de bolivarianismo, os governos populistas da Bolívia, Equador, Argentina e Venezuela têm se dedicado a executar uma série de políticas que pouco ajudarão no processo de desenvolvimento econômico. Por exemplo, os indicadores econômicos da Venezuela são os piores da região (inflação acima dos 20% e baixo crescimento econômico). Soma-se a essa realidade as altas taxas de violência urbana. É preciso estabelecer uma política de desenvolvimento para os países da América Latina. O Brasil se diferencia dos países acima citados, pelo fato de não ter modificado sua estrutura econômica e sua estratégia de controle inflacionário iniciado no Governo Itamar Franco. Somente me preocupa a tentação populista que o futuro governo brasileiro enfrentará. Espero que as conquistas econômicas e sociais continuem a lógica iniciada há quase duas décadas e que o compromisso em desenvolver o país se mantenha a despeito do populismo de perpetuação de poder.

O Economista – Dados do relatório World Economic Outlook (Perspectivas da Economia Mundial) divulgado nesse mês indicam que a economia da América Latina deve crescer 5,7% em 2010, enquanto a previsão mundial ficou em 4,8%. Como você explica essa perspectiva positiva se comparada com os índices do mundo?

Acredito que no pós-crise financeira, pela qual as economias da região não foram impactadas, o crescimento mundial tem sido sustentado em grande parte pelo papel de fornecedor da América Latina. Além disso, a inserção de novos investimentos em economias que propiciam isso tem ajudado a melhorar níveis de crescimento. Países como o Brasil e o Peru, por exemplo, nesse ano crescerão mais que toda a região. A lógica é seguir esse caminho, diferente de países da região que ao contrário de atrair capitais, os afugentaram, como é o caso venezuelano e boliviano.

O Economista – Como se situa o Brasil no cenário da economia latino-americana?

O Brasil é tido como um dos mais importantes players mundiais. A revista The Economist já apontou isso numa publicação do ano passado. Os indicadores econômicos e sociais apontam isso, porém, os principais desafios brasileiros, do meu ponto de vista são: 1. não cair em tentação populista e deixar de lado o esforço por manter as políticas econômicas de metas inflacionárias e de responsabilidade fiscal; 2. realizar as reformas fiscal, política e previdenciária; 3. Diminuir o tamanho do custo Brasil que impede um crescimento sustentado no país e 4. investimento maciço em pesquisa e desenvolvimento de produtos que aproveitem as vantagens comparativas do Brasil em relação ao mundo. Nesse ponto chamo a atenção à ameaça da perspectiva chinesa de explorar o continente africano com a intenção de substituir produtos latino-americanos (matérias primas). África é mais perto para a China do que o nosso continente. Isso acabaria afetando o mercado exportador de muitos países da região.

O Economista – De que maneira você avalia a importância do bloco econômico do Mercosul para esses países e para o Brasil, especialmente?

Sou um tanto cético com o processo de integração regional aqui na América Latina. Estudei todos os processos e realmente não vejo com visão otimista a integração. Agora menos ainda quando temos, no Mercosul, a maioria de países engajados com políticas populistas que deixaram de lado um sólido processo de integração. Outro ponto negativo no Mercosul são as assimetrias produtivas existentes entre os países-membro. O grosso do comércio se dá especificamente entre Brasil e Argentina, Uruguai e Paraguai não têm papel ativo no bloco, até porque não possuem estrutura econômica sólida. Outro entrave para o Mercosul é a carência da estrutura institucional. Num bloco consolidado, precisa-se de instituições supra-nacionais sólidas que garantam o livre comércio. No Mercosul, qualquer desculpa política é motivo para acabar com a possibilidade de integração. Um exemplo claro é a taxa de câmbio, é só se valorizar ou desvalorizar no Brasil para que a Argentina ou os outros países-membro decidam suspender negociações comerciais (lembremos o caso das geladeiras brasileiras que foram barradas na Argentina sob justificativa de proteção da indústria nacional desse país). Pergunto: se não há elementos e condições sólidas de realizar comércio regional, por que integrar?

Lembro também que os processos de integração no mundo passam por crises. O exemplo mais claro é o da União Européia (UE) que no seu afã integrador acabou inserindo economias deficitárias no bloco (como a da Grécia), situação que deixa as contas deficitárias do bloco já que se obriga a um tratamento igualitário a qualquer país-membro. Mesmo assim, considero que a UE é a mais eficiente estrutura de bloco hoje existente. Pode parecer um exagero, mas considero que foi o medo da guerra o que motivou os países europeus a acreditar na integração. Só dessa forma essa estratégia defensiva pôde garantir a formação de um tecido institucional e supra-nacional forte. Na América Latina, ao contrário, a nossa maior motivação foi política (desde a época do libertador venezuelano Simón Bolivar), passamos por tentativas frustradas de integração (Alalc, Aladi e Comunidade Andina) que acabaram na medida em que os países-membro procuraram estabelecer estratégias internas individuais.

O Mercosul surge de uma motivação econômica mas, infelizmente, até agora não foi levado a sério no seu objetivo de desenvolver seus membros. Finalmente, vejo que a política de relações exteriores do Brasil está mais preocupada em fazer do Brasil um país hegemônico na região, mas do ponto de vista político. A nossa política não tem visado o aumento do comércio internacional do país, em parte porque o Mercosul impede o Brasil de estabelecer, por exemplo, acordos bilaterais com países que estejam nas mesmas condições econômicas. Isto tem freado o crescimento brasileiro no mundo.

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