mães empreendedoras

Para as mulheres, ter de lidar com duplas ou mesmo triplas jornadas de trabalho sempre foi algo difícil. Quando viram mães, fica ainda mais complicado, tornando muitas vezes inviável a relação entre maternidade e vida profissional. Segundo uma pesquisa da Catho, realizada em 2016 com mais de 13 mil pessoas, 28% das mulheres já abriram mão do emprego após a chegada dos filhos, contra apenas 5% dos homens. Como consequência, há um aumento no número de mães empreendedoras.

Depois de deixar o mercado de trabalho, acessá-lo novamente passa a ser missão ainda mais complicada. De acordo com a pesquisa, enquanto a maioria dos homens retoma a carreira em menos de seis meses, o retorno profissional das mulheres é distribuído ao longo dos anos.

Enquanto 21% das mulheres levam mais de três anos para ter novamente uma vida profissional, apenas 2% dos homens levam esse tempo para voltar a trabalhar. Já o retorno em um período de menos de seis meses é uma realidade para 49% dos homens e 13% das mulheres.

“Os dados apontam que os homens quase nunca se afastam do trabalho após a chegada dos filhos. Já as mulheres acabam abrindo mão da vida profissional em prol da maternidade por muito mais tempo, o que dificulta ainda mais a retomada”, explica a gerente de relacionamento com cliente da Catho, Kátia Garcia.

A desigualdade no mercado de trabalho

Quando estão no mercado de trabalho, as mulheres ainda possuem uma pequena participação em cargos de alta gestão. Ainda de acordo com a pesquisa da Catho, quanto maior o nível, menor a presença feminina.

Embora tenha tido um pequeno crescimento nos últimos anos, o número de cargos de presidência ocupados por mulheres ainda é de apenas 25,85%. Na outra ponta, ainda em cargos de gestão, 61,57% dos cargos de encarregado são destinados a mulheres. O percentual vai para 57,92% nos de supervisão, 41,99% de gerência, 27,95% de direção e 27,46% de vice-presidência.

“Se analisarmos a configuração de cargos por gênero, fica claro que após alcançarem o cargo de gerência, as mulheres crescem na carreira em menor proporção que os homens. Talvez isso se explique, em partes, porque é nesse período, geralmente, que a maternidade ocorre em paralelo”, afirma Garcia.

Mães empreendedoras

Com as dificuldades de voltarem ao mercado de trabalho, a alternativa acaba sendo o empreendedorismo. Uma pesquisa da Rede Mulher Empreendedora mostra que 75% das empreendedoras decidem ter um negócio após a maternidade. Na classe C, esse número chega a 83%. O estudo ouviu quase 1400 mulheres de todo o Brasil.

Para Ana Fontes, fundadora da Rede Mulher Empreendedora, a mulher precisa de flexibilidade, mas “o mundo corporativo ainda é hostil para essa profissional”. Por isso, a solução acaba sendo empreender, que supre essa necessidade e ainda oferece independência financeira.

Em relação às motivações para empreender apontadas na pesquisa, trabalhar com o que o que se gosta é a primeira, citada por 66% das mulheres, seguida de uma maior flexibilidade de horário, que aparece com 52%. Conseguir uma renda melhor também surge com destaque, colocada como opção por 40% das entrevistadas.

Na conclusão do estudo, Fontes aponta que as mulheres “estão empreendendo mais, melhoraram a questão do networking, mas ainda precisam de uma maior contribuição familiar na divisão de tarefas, de acesso ao crédito e de políticas públicas que incentivem o crescimento de seus negócios”.

Iniciativa pensada para mães empreendedoras

Motivada por essa realidade, em que muitas mães não conseguem mais voltar para o mercado de trabalho, a empresária Danieli Junco criou a aceleradora B2Mamy, voltada justamente para as mulheres que encaram os problemas de lidar com a maternidade e a vida profissional.

A empresária decidiu abrir a aceleradora quando se deparou com números muito ruins. Um deles diz que quatro em cada dez mulheres não volta para o mercado de trabalho depois da maternidade. O outro mostra uma realidade em que muitas empresas fecham logo nos primeiros anos de vida por falta de capacitação e preparo. “A ideia é criar uma situação para que elas possam empreender”, diz Junco.

O potencial da iniciativa ficou claro logo que a própria idealizadora colocou em sua conta no Facebook uma chamada informal e apareceram 80 mulheres interessadas no projeto. Nesses nove meses, 350 ideias saíram do papel, entre novos negócios e melhorias em empreendimentos que já existiam.

O perfil das mulheres que procuram a B2Mamy é composto, geralmente, por mães de primeira viagem, com idade entre 35 e 42 anos e com ensino superior completo. O problema, segundo Junco, é que quando a mulher vira mãe “vai do 100 ao 0, ela não tem lugar”.

O objetivo é ouvir o que elas têm para falar, tendo em vista que, segundo a empresária, é muito difícil para as mães encontrarem essa oportunidade em outro lugar. Aí o propósito é ver se elas realmente querem empreender, pois muitas encontram tantas dificuldades que não sabem muito bem o que fazer. “A minha ideia é dar voz para que elas possam falar e descobrir o que realmente querem”, afirma.

Por isso, as mulheres que não querem empreender também recebem apoio e orientação da aceleradora. Esse trabalho, inclusive, chamou a atenção de algumas empresas que procuraram a B2Mamy para criar políticas que melhorem as condições das mães. “Queremos criar uma nova cultura”, destaca a empresária.

Para ingressar na aceleradora, a ideia não precisa, necessariamente, ser escalável ou ter base tecnológica. E também não há a obrigatoriedade de as empresas aceleradas oferecerem um percentual de participação nos negócios. Existe uma trilha que começa pela exposição da ideia e depois vai afunilando, com o direcionamento das propostas para as soluções mais adequadas.

Uma publicitária que ingressou no ramo de roupas infantis

Amanda sempre teve o desejo de aprender a costurar

A publicitária Amanda Mosimann, 30 anos, trabalhava há dez anos área de formação quando engravidou de Glória. Passada a licença maternidade, ela foi demitida. E daí surgiu a motivação para empreender e criar a Chineque Ateliê Infantil, que fabrica e vende camisas mais estilizadas para crianças.

A ideia de criar um ateliê tem origem em um desejo que Amanda tinha de aprender a costurar. “Com a saída do mercado de trabalho decidi abrir minha mente para as possibilidades, deixando o ego de lado”, conta. Nesse processo, ela pesquisou bastante e procurou por algum nicho de mercado que estivesse carente. “Encontrei na costura para meninos e no próprio empreendedorismo uma paixão que eu desconhecia”, afirma a empresária, que já chegou a dizer que jamais abriria sequer uma barraquinha de pastel na praia, pois sempre gostou de trabalhar como funcionária.

Hoje, ela se sente realizada com o trabalho e garante que não pretende largar o negócio por nada. “Tenho tempo para minha filha e faturo por mês mais do que recebia trabalhando como funcionária. É como dizem, ‘filhos costumam parir grandes empreendedoras’”, diz Amanda.

Sobre as dificuldades no mercado de trabalho, ela lamenta que ainda seja assim. “É impressionante como os empresários abrem mão de excelentes profissionais pelo fato de elas serem mães. Não consigo entender o critério que eles usam para considerar mães como incapazes, sendo que com a experiência da maternidade as mulheres adquirem habilidades multitarefas que homem nenhum seria capaz”, comenta a empresária.

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